Contrato de compra e venda do setor audiovisual é assinado em São Paulo
O governo de São Paulo anunciou a parceria com a Amazon MGM Studios, que deve lançar um programa de formação no audiovisual, retirando a autonomia da criação brasileira das obras nacionais.
O futuro é estadunidense para o Brasil. Na última segunda-feira, 9 de fevereiro, o governo de São Paulo fechou acordo com a Amazon MGM Studios através da Secretaria de Cultura, Economia e Indústrias Criativas.
O acordo prevê ações formativas para profissionais do setor audiovisual por meio da CULTSP PRO (Escolas de Profissionais da Cultura), que contarão com sete encontros formativos ministrados por executivos da empresa estadunidense voltados para produção audiovisual, roteiro para séries, filmes e documentários, business affairs, efeitos visuais e temas jurídicos.
A ideia é formar profissionais que atendam às demandas dos conglomerados estadunidenses de streaming para que assim as produções desse setor do audiovisual percam a identidade brasileira, sendo substituída pela interpretação do que há de mais mainstream na produção audiovisual hollywoodiana.
O anúncio vem como um prelúdio do que pode estar por vir com a aprovação do PL do streaming, previsto para o próximo mês, e adiciona uma camada a mais aos desdobramentos que tivemos desde o infame jantar entre o Ministério da Cultura e a Strima, noite em que o secretário-executivo do MinC, Márcio Tavares, concordou em ser um lobista para os interesses dos conglomerados.
Entre as medidas seladas naquele jantar, está a possibilidade de dedução de 60% do tributo pago ao Condecine também em ações de formação. Ou seja, esta parceria pode ser lida como mais um movimento dos governos, sejam eles estaduais ou federais, na direção da total entrega da nossa indústria audiovisual.
Com o cenário futuro da regulamentação do streaming que fecha o caixão da nossa indústria audiovisual, já podemos dizer que os novos donos deste setor chegaram com o pé na porta, adiantando os favores liberados quando o MinC se tornou aliado do lado de lá da corda. (No TelaViva)
Roku posiciona o Brasil como um dos seus principais mercados globais
Enquanto os governos brasileiros autorizam a venda do setor audiovisual, o Brasil continua se mostrando um dos principais mercados mundiais no que se refere ao crescimento da TV via internet. Um dos exemplos disso é o sucesso da Roku, empresa estadunidense que atua há seis anos no país e já tem em terras brasileiras um dos seus maiores mercados.
Como sempre batemos na tecla por aqui, as empresas entendem que o futuro da TV passará pelo streaming e pela internet, apesar de que muita gente insiste em não compreender que não é a TV que faleceu, mas apenas ganhou outros horizontes de expansão.
É neste sentido que a Roku tem trabalhado para expandir a gama de canais FAST oferecidos em seu sistema, seja em TVs ou via o aparelho Roku Stick (um conector de TV que a transforma em uma Smart TV, caso ela não possua essa tecnologia ou a loja de apps disponível nela tenha ficado defasada).
O que atrai o interesse de empresas como a Roku, a Samsung com sua TV por internet (Samsung TV Plus), o TCL Channel, entre outros serviços online, é o ambiente desregulamentado do Brasil para esse modelo de negócios, ainda mais com uma regulamentação do streaming que insiste em ignorar o tema.
É neste contexto que aproveitamos o clima carnavalesco para alertar aos nossos órgãos reguladores competentes para abrirem os olhos, pois atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, e essas empresas estão bem vivas e de olho em nosso mercado desregulamentado para a TV via internet. (No TelaViva)
Setor audiovisual defende cota de 20% para obras brasileiras em plataformas de streaming
Um grupo de 21 entidades do setor audiovisual brasileiro enviou nota ao Senado e ao Governo Federal propondo regulação mais rigorosa para plataformas de streaming, com destaque para a elevação da cota de conteúdo nacional de 10% para 20% nos catálogos.
A mobilização contesta o PL nº 2331/2024, atualmente em discussão, especialmente quanto à proposta de permitir que empresas deduzam até 60% de sua contribuição por meio de incentivo fiscal. O setor alerta que tal mecanismo transfere às plataformas o poder de decisão sobre recursos públicos e pode comprometer o financiamento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).
As entidades argumentam que o percentual de 10% está muito abaixo de referências internacionais: a França exige 60% de obras europeias, enquanto Portugal e Itália determinam 15% de conteúdo nacional independente. Além disso, criticam que a alíquota brasileira proposta (3% ou 4% sobre receita) e a arrecadação estimada em R$ 400 milhões para o FSA equivalem ao orçamento de apenas duas séries originais produzidas por plataformas no país.
O documento também questiona a exclusão de tributos indiretos e comissões de parceiros da base de cálculo da Condecine, destacando que na França as plataformas contribuem com 5,15% para o fundo nacional, além de obrigações de investimento direto entre 15% e 25% da receita bruta.
Apesar de ser uma manifestação correta do setor, que vem sendo massacrado pelo lobismo da pauta, vale alertar para incongruências sobre as porcentagens citadas de países europeus.
Os 15% de conteúdo nacional em Portugal não existe. Além de ser uma das regulamentações mais fracas da União Europeia, que estima a cobrança de apenas 1% de contribuição das plataformas para o setor audiovisual português, não há um sistema de garantia de cota de tela das produções do país em catálogo, se limitando a seguir o aprovado pela Direitiva do Parlamento sobre a reserva de espaço para o conteúdo europeu, mas não exclusivamente do país em questão.
A esta altura do campeonato, é válido seguir citando modelos europeus que estão dando certo (ou não tão certo, visto que o setor português faz críticas à legislação aprovada por não suprir o mínimo esperado), mas é preciso pensar no sistema brasileiro e em nossas próprias necessidades.
Enquanto a regulamentação europeia atua com base na neutralidade tecnológica, e assim evita ter problemas com a chegada futura da TV 3.0 no bloco, os PLs brasileiros descartam a possibilidade de unir ambos os assuntos, e a cobrança por mais cota de tela está longe de ser um caminho de verdadeiro fortalecimento do mercado interno nas plataformas estrangeiras. (No TelaViva)
Dicas de Filmes do Cine Livre LA
No último dia 08 de fevereiro tivemos a final do Super Bowl nos EUA e o que mais chamou a atenção foi o show do intervalo com o rapper porto-riquenho Bad Bunny, assunto da semana nas redes sociais.
Bad Bunny deu uma verdadeira aula de geografia aos estadunidenses, já que não estudam a disciplina nas escolas, o rapper porto-riquenho fez da maneira mais lúdica e direta possível que os EUA não são a América e sim fazem parte da América, sendo um grande continente com diversos países de diversas línguas.
Durante o show do intervalo Bad Bunny representou a cultura de Porto Rico e os problemas que os moradores desta ilha caribenha (um território pertencente aos EUA), sofrem nas mãos de empresas privadas, como foi explorado na música “El Apagón”.
No final do show Bad Bunny citou todos os países da América e por último citou Porto Rico como um grito de independência. Agora é ver quais os efeitos dessa manifestação em forma de show de Reggaeton.
O cinema tem sido uma ferramenta importante, além da música, para expressar o desejo de parte dos porto-riquenhos de se tornarem independentes, uma forma também de conhecer a história desse arquipélago caribenho.
Já indicamos por aqui filmes como “Culebra: El Comienzo”, de Diego de la Texera, 1971, sobre os problemas causados pela base militar dos EUA no município porto-riquenho Culebra e a luta por independência.
“La Operación”, de Ana María García, 1982, denuncia a política de esterilização de mulheres sem o consentimento, comandada pelos EUA. Também resume a história da relação entre Porto Rico e EUA. Os dois curtas-metragens estão disponíveis no YouTube.
Hoje vamos indicar alguns filmes disponíveis nas plataformas de streaming nacionais que mostram a força cultural da América Latina. A diversidade da nossa cultura e nossa força.
Cada país tem sua identidade, que muitas vezes se cruzam, mas o que nos une principalmente são as pautas de luta e precisamos resolver essa questão dos EUA em interferir nos países independentes latino-americanos e a imposição de sua cultura cada vez mais agressiva, interferindo na autonomia dos países.
Mas um dos principais estragos dessa interferência dos EUA na América Latina foi de fato as ditaduras militares que violentaram nosso continente. Essa violência que tortura até hoje as famílias dos desaparecidos e assassinados nos regimes ditatoriais e que também marcou uma mentalidade que até hoje nos assombra.
Nos filmes do chileno Patrício Guzmán, realizador do monumental “A Batalha do Chile” (1975-1979) traz as consequências da ditadura militar no Chile e o trauma causado nas famílias. No longa “Nostalgia de la Luz” (2010) representa as mães e viúvas em busca dos restos mortais de seus entes queridos na imensidão do deserto do Atacama.
Em “El Botón de Nácar” (2015), Guzmán faz uma relação da violência da ditadura com o genocídio indígena no Chile através das águas, sepultura de muitos corpos. “La Cordillera de los Sueños” (2019), Guzmán se concentra na capital Santiago e no que está por trás do grande paredão formado pela Cordilheira dos Andes e as questões ainda não resolvidas com a violenta e cruenta Ditadura de Pinochet.
Os três filmes de Guzmán estão disponíveis na plataforma do Sesc Digital, com acesso gratuito.
Para os assinantes da FILMICCA, nosso melhor streaming (pago), uma plataforma nacional com curadoria, ou seja, filmes escolhidos a dedo, com o melhor acervo de cinema latino-americano oferecido por um streaming no país, indicamos o longa-metragem peruano, “Wiñaypacha”, do diretor Óscar Catacora, lançado em 2017. Óscar Catacora despontava com uma carreira promissora, além de diretor, um excelente roteirista e um talentoso diretor de fotografia. Infelizmente o jovem realizador peruano da região de Puno faleceu aos 34 anos por problemas de saúde, quando estava rodando o que seria seu segundo longa, “Yana-Wara”, concluído por seu tio Tito Catacora.
“Wiñaypacha” é um filme contra-colonial, falado em aymara, realizado entre a família Catacora, sobre um casal de idosos que vivem próximos da Cordilheira dos Andes aguardando o retorno do filho. A imponência dos Andes e do casal de pessoas idosas que sobrevivem às intempéries da região. Com uma fotografia magistral traz a ancestralidade viva do povo Aymara e seu modo de vida.
Aos assinantes do À La Carte, um musical boliviano se destaca na plataforma do Grupo Belas Artes, “El Gran Movimiento”, dirigido Kiro Russo, um dos mais promissores da América Latina, se tratando de direção.
O filme basicamente é uma continuação de seu primeiro longa, “Viejo Calavera” de 2016, representando a vida dos mineiros de Huanuni, uma das principais minas de estanho da Bolívia, além de sua importância histórica na Revolução Boliviana de 1952.
Kiro Russo é um pesquisador da evolução cultural dos mineiros de Huanuni. Revelou e transformou a vida do ator Júlio César Ticona, protagonista de seus filmes.
O poder da cultura e do idioma dos povos são cruciais para a nossa autonomia. Um rapper que só canta em espanhol fazendo sucesso nos EUA com sua cultura, filme falado em aymara ou quéchua, ou que universaliza identidades locais, que representam a diversidade dos povos americanos.
Todos somos americanos e cada país tem sua história, suas peculiaridades, cultura e formação étnica. O audiovisual é uma ferramenta de empoderamento e um excelente soft power.. É por isso e também por outros motivos que o audiovisual e outras manifestações artísticas e culturais são importantes e estratégicas para qualquer país.
Assinem plataformas nacionais!
Um bom Carnaval a todes!
Por Angelo Corti, idealizado da página Cine Livre Latino-Americano
EBC anuncia o resultado do edital Seleção TV Brasil
Na última quarta-feira, 11 de fevereiro, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), divulgou o nome dos 39 projetos selecionados na chamada pública Seleção TV Brasil, que consiste no maior investimento do Brasil em projetos voltados para a televisão pública no país, somando R$ 109 milhões em projetos que serão custeados pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Essas produções serão exibidas na TV Brasil e em emissoras parceiras da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP).
Um dos destaques do evento da revelação dos projetos foi a chamada para os esforços pela descentralização das produções do eixo Rio - São Paulo, mas se fazem necessárias algumas ressalvas.
Dos 39 projetos selecionados, 17 acontecem no Nordeste, enquanto 15 estão localizados entre Rio (5) e São Paulo (10). Se colocarmos Minas na jogada, estado da região sudeste, por mais que historicamente tenha sido preterido em relação a Rio e São Paulo, são 20 projetos de estados na mesma regionalidade, mais da metade de todos os selecionados.
Claro, todo esforço para a descentralização das verbas referentes a projetos do audiovisual nacional é uma ação louvável, mas a impressão que sempre passa nesses casos de esforços pela descentralização é que eles poderiam ser um pouco maiores, contar com mais boa vontade, como no caso dessa própria chamada, já que 15 projetos dos 39 são do eixo RJ - SP, mais de 1/3 está em apenas dois dos 26 estados da federação (mais Distrito Federal).
Como sempre falamos aos nossos leitores que Roma não foi construída em um dia, mas a boa vontade para colocar os tijolos poderia ser maior. (No TelaViva)
Argentina adia para 2028 a eliminação de impostos que financiam cinema nacional
O Senado argentino aprovou por 42 votos a favor e 30 contra uma reforma trabalhista que adia até 1º de janeiro de 2028 a eliminação dos impostos específicos que atualmente financiam o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA). A medida foi recebida com cautela pelo setor audiovisual, que mantém uma forte posição contrária à eliminação do modelo de financiamento vigente.
Segundo o artigo 210 do texto aprovado, a partir de 2028 o INCAA será financiado exclusivamente com dotações orçamentárias anuais do governo federal. Ou seja, ficará a cargo do executivo e do legislativo decidir a verba destinada para o setor, podendo ser menor do que necessidade dos trabalhadores da indústria.
Atualmente, o Fundo de Fomento Cinematográfico se sustenta por meio de três fontes principais: 10% sobre o valor de cada ingresso de cinema, 10% sobre venda de DVDs (que durante a gestão de Alberto Fernandez tentou ser modificado para as plataformas de streaming do segmento AVOD), e 25% do arrecadado pelo órgão regulador de comunicações (Enacom) proveniente de impostos sobre faturamento de rádios, canais e serviços de TV paga.
Hernán Findling, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina, considera que a prorrogação evitou um impacto imediato, mas favoreceu ainda mais um período de grande incerteza.
Já o Espacio Audiovisual Nacional (EAN), um dos principais sindicatos do setor no país, classifica a medida como “manobra” do governo, comparando-a à expiração automática de financiamentos ocorrida em 2023. O diretor Bruno Stagnaro alertou que a aprovação dos artigos é o fim da indústria de cinema na Argentina. (No La Nación)







Cada vez mais o CONDECINE, que nasce como uma política para fomentar o desenvolvimento de uma indústria audiovisual nacional, se redesenha para funcionar como uma Lei Rouanet Internacional para o segmento, em que conglomerados que já iriam investir no Brasil pela demanda de público por produções próprias, ganham um "plus" fiscal por esses investimentos.
É o fomento às avessas: o mercado estrangeiro investe o mesmo valor, mas ganha cada vez mais benefícios.
...ainda mais triste quando "a coisa" foi possível acontecer por intermédio de quem você viu e deu super apoio para "crescer".