Governo investe R$ 17,9 milhões em publicidade nas plataformas de streaming, mas não dá resposta clara para a regulamentação
#Edição 134 | Matéria da A Pública chama atenção para ambiguidade que pode enfraquecer posição do Governo Federal para uma regulamentação do streaming relevante em todos os elos
Muito provavelmente, contradição deve ser um dos nomes do Lula ou de qualquer outro membro do Partido dos Trabalhadores. Contudo, algumas vezes o partido ultrapassa a linha onde a contradição flerta entre equívoco e cinismo.
Esta afirmação é feita com base nos dados da Secretaria de Comunicação Social do Executivo, que revelaram tal realidade: apenas no ano passado, o Executivo destinou mais de R$ 17,9 milhões a campanhas publicitárias em serviços de streaming que contam com planos com publicidade [aquela mesma que o streaming passou a segunda metade da década passada dizendo que estava morta].
A contradição mencionada no começo desse texto fica ainda mais latente quando, ao mesmo tempo que tenta regulamentar o modelo de negócios do streaming, o governo usa do alcance dessas plataformas para veicular campanhas publicitárias de ações do próprio governo. Para a advogada e cientista política Gabriela Rollemberg, membro fundadora da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, essa ação gera uma ambiguidade que enfraquece o discurso do governo e sua posição como legislador da regulamentação do streaming.
Enquanto as plataformas de streaming aumentam constantemente o preço das assinaturas, um PL que regulamenta o setor vai à votação sem pensar no consumidor. Planos com anúncios tornaram-se realidade em serviços de streaming audiovisual no fim de 2022 com a Netflix [primeira a aderir às publicidades, o que é uma ironia das grandes].
Algumas empresas decidiram criar um plano com publicidade à parte, como no caso de empresas como a Amazon, que decidiu inserir publicidades em contratos que inicialmente tinham sido fechados sem essa modalidade. E o que temos nesse PL para tratar de casos assim ou de outras possibilidades que vão contra o consumidor? Nada.
Outro detalhe é o tempo e a inserção das publicidades: quem decide isso? As empresas? Daí temos planos com publicidade que são impossíveis de assinar, como é o caso do Disney+, onde um mero episódio de 20 minutos de um anime tem entre 4 e 6 inserções de 90 segundos CADA, totalizando quase metade do tamanho do episódio. O consumidor foi totalmente escanteado desse PL, como destacou muito bem a Gabriela Rollemberg:
“O projeto concentra energia na dimensão tributária e na política de fomento, o que é legítimo, mas praticamente silencia sobre o elo mais vulnerável dessa cadeia, que é o consumidor. Quando o Estado discute quanto vai arrecadar ou como vai redistribuir recursos ao setor, mas não enfrenta com a mesma ênfase a transparência contratual e a proteção de quem paga pelo serviço, ele transmite a mensagem de que o usuário é um detalhe, e não o centro da regulação”.
Ao que tudo indica, dentro do governo do presidente Lula há duas diretivas contraditórias em relação ao tratamento da indústria audiovisual nacional. Uma delas é a que diz estar ao lado dos trabalhadores do setor, que atua pela defesa da soberania da indústria audiovisual brasileira. A outra é a que organiza a entrega do audiovisual brasileiro ao capital privado, principalmente o estrangeiro.
O governo Lula nem tentou disputar o Projeto de Regulamentação do Streaming que atualmente está parado no Senado, para que assim pudesse tratar das lacunas, inclusas aí partes referentes à proteção ao consumidor, um ponto que ficou de fora do projeto que está em vias de ir à votação no Senado. (Na matéria da A Publica)
Streaming ainda não consegue provar audiência para atrair marcas
Na última quarta-feira, 4 de março, aconteceu em São Paulo o evento Streaming Ads, realizado pela Abotts em parceria com a APP, a Associação dos Profissionais de Propaganda.
Durante o evento, foram discutidos os rumos da publicidade e como o ambiente digital é atrativo para as marcas, em especial o modelo de negócios do streaming. Contudo, os próprios participantes, muitos profissionais que atuam na área desse modelo de fazer e entregar audiovisual, frisaram que os dados no streaming precisam tanto de uma leitura mais categórica como de aperfeiçoamento dos métodos com que os dados foram coletados.
Falando em miúdos, o que eles querem dizer é que o streaming ainda tem uma imensa dificuldade em quantificar realmente a sua audiência, que muitas vezes é contabilizada em horas assistidas ou no número total de visualizações, mas sem deixar claro se o filme, série ou transmissão esportiva foi assistido completamente, algo que é muito importante de se saber principalmente nos casos dos episódios de séries e filmes.
Enquanto na TV há métodos bem estabelecidos e conhecidos por várias empresas/órgãos que fazem checagem de audiência, no streaming ainda fica tudo muito restrito ao que as empresas dizem. São dados privados e sem horizonte de mudança para tal.
O fato de a metodologia de verificação da audiência na TV ser tão segura abre precedentes para que ela ainda seja uma das fontes mais confiáveis de inserção de publicidade para as marcas, algo que fica evidente quando a Globo precisou abrir mais cotas de venda de espaço publicitário durante a transmissão da cerimônia do Oscar, que ocorre na próxima semana, 15 de março.
Como sempre falamos por aqui, o streaming é um pavão que abre sua penagem para parecer maior do que de fato é. Lógico, plataformas como a Netflix possuem uma audiência enorme, mas ainda menor que o SBT em um dia ruim. E não é somente a audiência que é um problema, as questões trabalhistas, a relação com o consumidor, a forma como eles tratam o licenciamento das obras, o streaming é um terreno nebuloso que ao ser deixado solto por tanto tempo, contaminou a sólida regulamentação da TV que temos no Brasil, com o presidente da Sky pedindo pela desregulamentação da TV fechada, e dada a realidade, não podemos discordar da sua opinião.
Estamos em um momento em que a não regulamentação do streaming começou a cobrar um preço alto por não ter acontecido, e quem vai pagar esse preço somos nós, sejam os trabalhadores da indústria audiovisual brasileira, os mais atingidos, como os consumidores brasileiros, a deriva com os mandos e desmandos das empresas de streaming que atuam por aqui, principalmente as estrangeiras.
A situação é tão ruim que a certeza de que os anéis se foram nós já temos. Agora é lutar para manter os dedos, o que será motivo de comemoração caso consigamos. (No TelaViva)
El Cine de Nuestras Hermanas
Hoje vamos dar dicas de filmes realizados por nossas hermanas argentinas que há décadas se destacam no cinema mundial.
Muitos acompanharam o absurdo do pronunciamento do presidente do Júri do último Festival de Berlim, o cineasta alemão Wim Wenders. Na ocasião, Wenders disse que os cineastas devem ficar fora da política, ou seja, não se manifestar politicamente em festivais, apenas se limitar a criticar através de seus filmes.
É de extrema importância a manifestação verbal nos microfones abertos e amplificados dos púlpitos da cultura e das artes, além do posicionamento dos festivais de cinema. A manifestação firme e legítima quanto ao que está acontecendo no mundo é uma importante forma de chamar a atenção, ainda mais em tempos de velocidade de informação e engajamento nas redes sociais, pois não estamos vivendo na geração Coca-Cola. O sonho acabou. O que estamos vivendo é o fim da humanidade, ou o que resta dela, ainda mais tratando-se de benevolência e compaixão.
Na premiação do Goya 2026 (o Oscar espanhol), no último sábado dia 28 de fevereiro, a cineasta e atriz argentina, Dolores Fonzi, ao receber o Goya de Melhor Filme Iberoamericano com o longa-metragem “Belén”, foi bastante direta ao falar sobre o avanço da extrema direita e os estragos que estão causando pelo mundo, inclusive na Argentina com o nefasto presidente Javier Milei e sua política de destruição cultural e de valores.
Foi importante seu posicionamento e causou grande engajamento nas redes sociais. No caso, Fonzi representou nas telas um filme forte e crítico tanto quanto o seu posicionamento no Goya. “Belén” é um excelente filme de tribunal que representa um caso real de acusação de aborto na província de Tucumán, na Argentina em 2014, que gerou revolta e resultou na legalização do aborto no país. O filme está disponível no Prime Vídeo.
Também nesta última semana tivemos a estreia do documentário “Nuestra Tierra” de Lucrecia Martel nos cinemas argentinos. O filme representa o julgamento do assassinato do líder indígena Javier Chocobar, do povo Diaguita, também na região de Tucumán em 2009. Mesmo com o assassinato filmado, com provas irrefutáveis, demorou uma década para iniciar o julgamento dos assassinos. Vamos torcer para que o filme tenha estreia no Brasil.
Enquanto isso, indicamos dois filmes primorosos de Martel disponíveis na plataforma de streaming da Mubi. “La Ciénaga”, 2001, marca uma nova fase do cinema argentino. Lucrécia nasceu na província de Salta, no norte argentino, e, ao representar a sociedade na qual nasceu e cresceu, realizou um dos melhores filmes argentinos de todos os tempos, inaugurando o Novo Cinema Argentino, representando de forma crítica uma sociedade de classe média-alta dependente que nada produz. Uma sociedade racista e letárgica na complexidade de uma família numerosa, onde o dinheiro está acima de qualquer valor moral, ou seja, uma sociedade hipócrita.
“La Niña Santa”, 2004, também é uma obra importante que sacramentou Martel como uma referência no cinema mundial, realizando um filme que se sustenta também através do “som”. A sonoridade diegética desse filme é algo que chamou a atenção de muitos cineastas experientes do cinema mundial.
Trata-se de um “coming of age”, um filme sobre “amadurecimento” de uma jovem que se sente atraída de certa forma por um médico casado. A obra chega a uma linha limite, tensionando a trama e desvendando uma hipocrisia social. São caminhos não acessados pela ignorância e que levam ao assédio, principalmente em uma sociedade machista e patriarcal.
É um filme imperdoável como toda a cinematografia de Martel. A cineasta argentina tem se manifestado sempre que possível, também verbalmente, sobre a educação da classe média e alta. No geral, a classe média latino-americana carece de cultura e educação. Como diz o nosso “Emicida”, não merece ser chamada de “elite” uma classe que tem apenas dinheiro e que é medida pelo acúmulo.
A verdadeira “elite” é aquela que traz benefícios à sociedade. Segundo Emicida, “o significado da palavra elite é o que uma categoria tem de melhor”.
Outra grande cineasta e que pode ser considerada da elite argentina, é María Luisa Bemberg que realizou grandes filmes de cunho feminista sobre a emancipação da mulher em diferentes épocas da história da humanidade.
A nossa dica é o longa-metragem “Camila”, de Bemberg, que competiu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1985. Um filme de época, representando a Argentina da primeira metade do século XIX, onde uma mulher da aristocracia burguesa se rebela contra a submissão e pela liberdade de escolha. É um filme que também representa Bemberg e sua condição na época em que decide ser cineasta.
Vale a pena conferir toda a cinematografia de Bemberg para entender melhor a condição da mulher burguesa na sociedade argentina. Está disponível no YouTube
Das mais novas gerações, destacamos “El Último Verano de la Boyita” (2009), dirigida por Julia Solomonoff, uma realizadora que consegue captar através das lentes o espírito do argentino do interior, do trabalhador do campo e de sua ignorância com o mundo e com a ciência. Da falta de cultura e educação a essa classe que vive marginalizada.
O filme trata das diferenças sociais na Argentina e da forte amizade entre duas crianças que transcende qualquer condição. É um filme imperdível e sem dúvidas um dos melhores já realizados sobre transgeneridade. Disponível no YouTube.
Da novíssima geração, “La Botera” (A Barqueira), dirigido por Sabrina Blanco e disponível na plataforma da FILMICCA, representa uma menina de 14 anos em fragilidade social que sonha em ter seu próprio barco e ganhar seu próprio dinheiro. Um filme que marca um novo olhar, mais empoderado e confrontador das sociedades não privilegiadas.
Essas foram as dicas da semana, destacando algumas cineastas importantes do cinema argentino e a importância de se posicionar politicamente, pois todo o cinema é político e precisamos da voz de nossas artistas.
Sem dúvidas poderíamos citar dezenas de filmes excelentes, vale pesquisar nomes de cineastas como María Barrionuevo e seus excelentes filmes sobre as mulheres da província de Córdoba e Laura Citarella realizadora do excelente “Tranque Lauquen” (Disponível no HBO Max) e muitas outras artistas cinematográficas talentosas.
Um ótimo final de semana a todes!!
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano
DirecTV lança pacote de TV a cabo com plataformas de streaming na Colômbia
A operadora de TV paga DirecTV lançou um novo tipo de plano no mercado colombiano. A ‘novidade’ permite que o cliente personalize seu pacote com serviços de streaming e pacotes premiuns de canais de TV paga, permitindo que o cliente altere sua escolha mensalmente sem custos adicionais.
Mais uma vez vemos o streaming se unir com a TV paga para nos apresentar a roda como novidade, jurando que essa é mais redonda e por isso é algo “nunca visto antes”.
Como sempre trazemos em nossas análises, a ideia é unir TV paga e streaming num mesmo produto, algo que a TV 3.0 almeja, não em levar a TV para a internet, algo já estabelecido, mas transformar o streaming para que ele caiba dentro da TV.
Empresas como Netflix, Disney+, Amazon Prime viraram canais, e antes que nos chamem de malucos, noticiamos há duas semanas que a Disney lançará um canal de filmes do seu streaming para a TV paga.
O Brasil acompanhou de perto o ciclo do streaming que consiste em:
Streaming passa dez anos sem regulamentação, o que pressiona as operadoras de TV paga a pedirem pela desregulamentação da sua área -> TV paga vai para a internet e se transforma em streaming, assim não arca com os custos da TV fechada -> streaming pensa em virar TV quando a regulamentação da sua categoria está para sair, mas não qualquer TV, uma nova forma de fazer transmissão, uma sem regulamentação.
Uns anos atrás diriam que somos loucos se falássemos isto abertamente, inclusive chamaram de louca a idealizadora desse projeto por pensar assim. Hoje, quem é o louco? (No TaviLatam)
Ministério da Cultura colombiano recebe críticas do setor audiovisual por atrasos no acesso ao incentivo público
O Ministério das Culturas, Artes e Saberes da Colômbia (MinCultura) se pronunciou publicamente após denúncias de produtoras e associações da indústria audiovisual sobre entraves burocráticos no acesso a incentivos fiscais previstos na Lei do Audiovisual do país.
Segundo representantes da Academia Colombiana de Cine, um processo que antes levava cerca de vinte dias úteis agora se arrasta por um ano inteiro, comprometendo a viabilidade financeira dos projetos.
Entre as queixas mais vigentes, estão a exigência de documentação não prevista em lei e critérios de avaliação inconsistentes que variam conforme a interpretação de cada funcionário do órgão.
Há ainda alguns relatos de que produtores foram contatados informalmente com advertências de que, se insistissem ou falassem publicamente, não receberiam apoio financeiro.
O impacto econômico desses entraves é direto: a legislação vigente permite uma dedução fiscal de 57,5% sobre investimentos em produção, e qualquer atraso na emissão dos certificados faz com que os investidores percam a janela para abater valores significativos do imposto de renda, afastando capital do setor. Segundo informações do Infobae, ao menos 17 empresas já registraram prejuízo.
Em sua defesa, o Ministério da Cultura se pronunciou e atribuiu os atrasos ao crescimento acelerado da demanda: as solicitações de incentivos saltaram de 171, em 2023, para mais de 400 em 2025, ano em que foram aprovados 196 projetos, totalizando mais de 383 bilhões de pesos colombianos. A pasta afirma que já está analisando a adoção de medidas para agilizar o processo.
No entanto, a crise também expôs uma assimetria que incomoda o setor: enquanto os incentivos para produções estrangeiras funcionam com agilidade, os processos para projetos nacionais envolvem mais exigências e maior lentidão.
Segue a sina da América Latina de seguir sendo balcão de negócios para os grandes conglomerados estrangeiros.
México e Guatemala anunciam aliança institucional para cinema
A ministra da Cultura e Esportes da Guatemala, Liwy Grazioso, e o cônsul do México em Quetzaltenango, Víctor Jiménez, assinaram uma carta que marca o início de uma nova etapa de cooperação institucional entre os dois países. O principal objetivo é a criação do Festival de Cinema de Quetzaltenango “María Rojo”, batizado em homenagem à renomada atriz mexicana.
Durante a cerimônia, a ministra guatemalteca destacou a parceria como uma aliança estratégica em temas culturais e esportivos, enquanto o cônsul mexicano ressaltou a capacidade de Grazioso de funcionar como ponte entre as duas culturas.
Também foram abertos três novos espaços culturais: a Biblioteca “Eréndira”, o Espaço de Vinculação Cultural Instituto Malintzin e o Auditório “Felipa Tzoc”, este último em homenagem à líder indígena que protagonizou uma rebelião em Totonicapán em 1820, episódio central da história maya-k’iche’. (No InfoBae)








Por mais análises precisas e densas sobre o setor cultural e audiovisual como esta.