Simplificando Cinema #03
Cresce a preocupação com a negativa das plataformas de streaming em pagar pela rede de internet entre os países da América Latina | Colômbia e Brasil são destaques com recursos ao audiovisual.
O entendimento de que as plataformas de streaming devem pagar pela rede de internet que consomem cresce a cada dia na União Europeia. Mesmo com o sucesso da regulamentação do streaming na região, o bloco econômico vem enfrentando uma grande dificuldade em conseguir passar mais uma normativa que, em tese, obrigaria as gigantes de streaming a pagarem pelo seu consumo de rede, evitando assim a concentração da mesma e a impossibilidade de navegação.
Tal discussão vem respingando na América Latina também. Nas últimas semanas, um debate encabeçado pela UNESCO se volta a favor dos órgãos reguladores da região na busca de um consenso, mesmo que o problema da regulamentação ainda não esteja resolvido em nenhum dos países.
Mesmo com a negativa recente da Netflix ao tema, é preciso atenção para os valores que podem acabar retornando para o próprio consumidor, sem contar com os pacotes mais caros de internet e TV a cabo, este último começando a incorporar também as plataformas de streaming e passando a ser uma subsidiária de conexão, como no caso recente do Uruguai.
Além do streaming, parte da demanda dos reguladores latinos é a garantia de tornar a internet um local descentralizado, ou seja, que os meios independentes também obtenham espaço para além de uma mídia pautada pelos interesses de grandes corporações, algo que também vem deixando a Europa alarmada.
Setor brasileiro vive a expectativa da regulação da Lei Paulo Gustavo
Depois de muita espera desde a mudança de governo, o setor cultural do Brasil eleva as expectativas para a regulamentação da Lei Paulo Gustavo, que está prestes a sair.
Na última semana, o Ministério da Cultura anunciou em seus canais oficiais que o Grupo de Trabalho do MinC está produzindo o documento regulatório, que também contém uma proposta de operacionalização e distribuição de recursos para todos os estados e o Distrito Federal.
O documento, que deve estar disponível em breve, contou também com a colaboração de gestores estaduais e municipais, fazedores de cultura, agentes culturais e conselhos espalhados nos quatro cantos do Brasil para que os recursos respeitem a descentralização e fomentem todas as diferenças culturais brasileiras.
Colômbia apresenta os novos estímulos ao audiovisual local
Seguindo a boa parceria entre Ministério da Cultura e Ministério da Tecnologia e Informação, o governo de Gustavo Petro anunciou esta semana um novo pacote de estímulos para a produção audiovisual do país.
Além de 25 bolsas para formação de novos profissionais ––que vão desde estudos técnicos em produção e gestão a ajuda de custo na participação de festivais––, os estímulos também centralizam esforços para o setor audiovisual independente da Colômbia.
Com um investimento de US$ 39 milhões, os ministérios estão lançando editais de fomento para a produção de cinema universitário, desenvolvimento de rádios comunitárias e também a produção de mais 80 projetos que evidenciem a cultura colombiana em tela.
Cumprindo com uma promessa de campanha em trazer um novo marco regulatório de mídia para a Colômbia, o governo também vai prover subsídios para TV pública do país. O objetivo é potencializar audiências regionais e novos conteúdos que falem também sobre os povos originários do país. (Veja mais no ProImagenes Colômbia)
Documentário colombiano faz sucesso nas salas do país

Sendo o terceiro maior país da região latina em salas de cinema e o quarto maior na produção anual de filmes, a Colômbia segue colhendo louros dos esforços que se iniciaram ainda na gestão de Ivan Duque.
Mesmo com a pandemia, a recuperação da bilheteria nacional vem tendo uma crescente desde o ano passado e já vem se provando eficiente também no caso do documentário “Cuando las Aguas se Juntan”.
O filme conta a história de 40 mulhers residentes das regiões de Nariño, Cauca, Chocó, Antioquia e Bogotá que lutam pela paz e o fim de conflitos armados no país que vem ceifando a vida de seus filhos e até mesmo de outras companheiras de luta.
Lançado no último dia 09 de março, o documentário produzido pela ONU Mulheres já levou mais de 3 mil espectadores para as salas de cinema em todo país somente na primeira semana em cartaz, o que refletiu em um retorno de bilheteria em US$ 30.700.
Por conta da preservação do filme nacional nas salas colombianas, idealizado pelo Ministério da Cultura local, é possível que o título permaneça por pelo menos um mês por todo o país.
Nuevo Cine Latino Americano, uma utopia
O mês de março poderia ser um mês dedicado ao Nuevo Cine Latino Americano pelo fato de celebrarmos o dia do nascimento de alguns dos principais nomes desse período riquíssimo e determinante do Cinema Latino Americano, como o argentino Fernando Birri, que nasceu em 13 de março de 1925 em Santa Fé na Argentina e é considerado o pai do Nuevo Cine Latino Americano.
A alcunha se deve ao fato de ter fundado uma das primeiras Escolas de Cinema da América Latina ao lado de Gael Garcia Marques, que resultou na famosa Escuela internacional de Cine e Tv de San Antonio de los Baños, em Cuba no ano de 1986.
Para celebrar, indicamos dois filmes de Fernando Birri, “Tíre Dié” de 1956 e “Los Inundados” de 1961. Ambos os filmes estão disponíveis no https://play.cine.ar/inicio gratuito e na versão restaurada.
O mês também tem sido de celebração pelo aniversário de Glauber Rocha, do nosso Glauber, baiano de Vitória da Conquista que nasceu em 14 de março de 1939.
Glauber transformou a linguagem cinematográfica proposta pelo neorrealismo italiano, que surgiu na Itália no final da Segunda Guerra Mundial, com o propósito de quebrar as regras hollywoodianas, dando liberdade para filmar e mostrar a realidade captada pela câmera, fora do estúdio.
A nossa dica de Glauber Rocha é o nosso dever de casa: “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de 1964. Disponível no Globoplay e gratuito na plataforma do Itaú Cultural Play, é um marco no Cinema Novo Brasileiro e também para a cinematografia mundial.
Já para as culturas andinas do nosso continente, Jorge Ruiz, pioneiro do cinema boliviano, nasceu em 16 de março de 1924, em Sucre. Durante sua carreira realizou “Vuelve, Sebastiana” de 1953 que já indicamos na edição passada. Disponível no canal do youtube dedicado ao realizador (https://www.youtube.com/@jorgeruiz-latinamericancla5814)
E para finalizar, não poderia faltar o nosso saudoso Geraldo Sarno, cineasta baiano de Poções, que nasceu no dia 06 de março de 1938. Indicamos “Viramundo” de 1965, uma história sobre o exôdo do nordestino expulso de sua terra em busca de uma vida melhor na cidade grande. Disponível no site dedicado a Geraldo Sarno (linguagemdocinema.com.br).
Outra dica imperdível do Nuevo Cine Latino Americano são os longas “Ochacal de Nahueltoro”, de Miguel Littín, 1969 e “Valparaiso Mi Amor”, de Aldo Francia, 1969.
Considerados clássicos do cinema chileno, os filmes estão disponíveis gratuitamente, junto com outros grandes nomes da cinematografia chilena no site da Cinemateca do Chile (https://www.cclm.cl/cineteca-nacional-de-chile/)
Um dos grandes filmes desse período, “La Hora de Los Hornos”, de Fernando “Pino” Solanas e Otávio Getino foi realizado em plena ditadura militar argentina e teve estreia apenas em 1973, sendo censurado logo depois como prova de mais um golpe dos militares. O filme completo está no Youtube.
As mulheres também estão muito bem representadas nessa fase com um clássico do documentário mundial “Araya”, da venezuelana Margot Benacerraf, de 1959.
O filme discute o trabalho insalubre na salinas de Araya, Venezuela, e o cotidiano de uma pequena vila de pescadores da região, uma obra de arte. Infelizmente não está disponível no streaming brasileiro, mas fora do país tem inclusive na plataforma do Criterion.
O Nuevo Cine Latino Americano é um processo que se consolida no final da década de 1950 e influencia nosso cinema até os dias atuais. Foi um movimento cinematográfico que influenciou toda a América Latina e uma geração de jovens cineastas e intelectuais que realizaram seu Novo Cinema, de acordo com a realidade de seu país.
Cabe salientar que teve forte influencia do neorrealismo, mas assumiu uma linguagem própria, com um cinema que também trazia a magia poética do cinema, junto com a crueldade da realidade.
O Nuevo Cine teve um caráter revolucionário, pois algo precisava mudar imediatamente, esse ímpeto revolucionário ainda se faz necessário em nossos dias. A utopia de Fernando Birri, nos mantém caminhando, rumo a uma América Latina independente e unida.
Por Angelo Corti, idealizado da página Cine Livre Latino-Americano no Twitter.
*Dica de leitura para quem quiser conhecer mais sobre o Nuevo Cine Latino Americano:
PARANAGUÁ, P. Cinema na América Latina – Longe de Deus e perto de Hollywood. São Paulo: LP&M Editores, 1985.
México terá homenagem ao seu cinema popular em Locarno
O festival suíço de Locarno vai dedicar uma homenagem ao cinema popular mexicano em sua próxima edição do “Retrospective”, um evento que compõe a programação do concurso “Heritage Online Contest”, destinado para a restauração de filmes por todo o mundo.
Filmes mexicanos da década de 40, 50 e 60 estarão em exibição no festival de 2 a 12 de agosto neste ano. Com o título “Espectáculo a diario - Las distintas temporadas del cine popular mexicano”, a curadoria do festival pretende evidenciar as obras de Emilio Fernández, Alejandro Galindo, Chano Urueta, Miguel Melitón Delgado, Juan Bustillo Oro e Gilberto Martinez Solares, que revolucionaram a arte cinematográfica do primeiro país latino a receber o cinematógrafo dos irmãos Lumière. (Mais no Latam Cinema).
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