Simplificando Cinema #104
Disney divulga pesquisa com mil pessoas em que 98% dos entrevistados diz consumir obras estrangeiras.
Na última terça-feira, 24 de junho, a The Walt Disney Company Brasil divulgou os resultados da pesquisa Generation Stream, que foi feita para analisar o comportamento de consumo do brasileiro com o streaming. A pesquisa contou com 1000 participantes em todo o país visando oferecer informações para o mercado de publicidade.
Dentre os resultados divulgados, o estudo mostrou que 98% dos entrevistados brasileiros consomem obras estrangeiras, enquanto 72% optam por obras de origem variada, ainda com 63% que acham importante estar conectados com suas origens locais e 67% considera importante assistir às obras nacionais.
O que a Disney não divulgou nesse estudo é a porcentagem de obras brasileiras e não hollywoodianas no catálogo do Disney+. Vivemos num país que após o fim da Embrafilme na década de 90 e a tomada do mercado nacional por Hollywood, perdeu a conexão com o audiovisual, conexão está que só voltou a ser trabalhada com a criação da Ancine e as políticas públicas para o audiovisual brasileiro no começo dos anos 2000.
O Estado voltou a ter seu papel de fomentar o audiovisual nacional para além do eixo Rio/São Paulo, sendo que os frutos só foram colhidos na década de 2010 . Então veio o golpe na Dilma, o Temer aloprou contra a cultura, a lei da cota de tela não foi renovada, todos esses foram fatores que contribuíram com os mais de 90% das salas tomadas por Vingadores Ultimato em 2019.
Um mal ainda maior foi o streaming que chegou por aqui em meados da década passada com a Netflix, a "Netinha" como muitos abobalhados chamam uma das maiores empresas do setor que trabalha para que trabalhadores do audiovisual tenham uma péssima remuneração, além de não deixar riquezas no Brasil já que não querem pagar Condecine. A Netflix, assim como a Disney, se mobiliza nos bastidores por uma regulamentação frouxa que em menos de 15 anos estará obsoleta pela questão da TV 3.0.
Esta reflexão foi feita para dizer que sim, o alto número de pessoas que assistem a produções audiovisuais estrangeiras não nos surpreende, afinal de contas é um dos maiores projetos políticos dos EUA no pós-guerra, vender para o mundo o que eles nunca foram, a "terra da liberdade", o "sonho americano", onde "as coisas acontecem". Então quando um conglomerado como a Disney solta esses números às vésperas da regulamentação do streaming, por mais capenga que seja o PL que está para tramitar, os conglomerados mandam um recado que aqui o que reina é Hollywood, e se depender deles e de sua forte ofensiva lobista, continuará assim ainda por muito tempo. (No TelaViva)
Cinema brasileiro registra crescimento de público e renda
Em comemoração ao 19 de junho, data que é celebrado o Dia do Cinema Brasileiro, em referência das primeiras imagens em movimento feitas no Brasil em 19 de junho de 1898 por Affonso Segretto, a Ancine divulgou um estudo que aponta um cenário de recuperação do mercado exibidor brasileiro em 2024 e com a tendência se mantendo no ano de 2025.
Houve aumento de público, de renda e de número de salas no período. Segundo o Relatório Focus 2025, o Brasil registrou o segundo maior aumento do público em cinemas dentre 21 países analisados, chegando a 70% do patamar pré-pandemia em 2019. O índice brasileiro superou a média global, que foi de 67,7%, também ficou acima de mercados como os Estados Unidos (62,2%) e o México (60,9%). A tendência de alta se mantém em 2025 com indicadores que se mostraram robustos.
O público nas salas de cinema até a 25° semana de exibição em 2025 apresentou um aumento de 26,3% em relação ao mesmo período de 2024. A renda passou do R$ 1 bilhão neste ano, representando um aumento real de 22,2%, descontada a inflação, com um crescimento nominal de 31,4% em relação ao ano anterior.
As produções nacionais tiveram um papel central nessa melhora de desempenho, já que em 2024 os filmes brasileiros tiveram um aumento de 241% no aumento da audiência, representando 10,1% da fatia de mercado do ano, números que é três vezes maior que os 3,2% de 2023. Muito do excepcional desempenho do cinema nacional em 2024 se deve ao sucesso estrondoso de "Ainda Estou Aqui". Já em 2025, até a 23° semana de exibição cinematográfica, encerrada em 11 de junho, a fatia do cinema nacional no público chegou a 16,5%, com 8,7 milhões de espectadores e uma arrecadação de R$ 166 milhões. Em comparação com o ano de 2023, a renda de todo o ano foi de R$ 67 milhões. O sucesso em 2025 se dá graças a filmes como "O Auto da Compadecida 2", "Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa" e "Homem com H".
Podemos tirar muitas leituras positivas desses dados, a primeira delas é que mais uma vez a realidade solapa as bobajadas viralatistas sobre o desinteresse do público brasileiro no cinema nacional.
Como os dados mostram, quando ele tem espaço, como o caso de "Ainda Estou Aqui", que chegou até em cinemas de cidades de interior, onde Hollywood reina quase de forma absoluta, as pessoas vão assistir, é tudo uma questão de política pública, espaço e principalmente do setor de exibidores serem obrigados a cumprir a cota de tela. O cinema nacional é diverso, guarda muitos talentos e o povo brasileiro gosta.
A ideia que Hollywood reina aqui vem de décadas de falta de acesso, incentivo e fomento federal ao cinema nacional e de políticas públicas como a cota de tela, então não é esperado que as pessoas procurem por algo que não está acessível, por tais motivos nós do Simplificando Cinema somos ferrenhos defensores da política de cota de tela e sempre cobraremos o Governo Lula, o MinC e a ministra Margareth pela defesa e ampliação dessa política pública, assim como de distribuição e fomento. Diferente do que se propaga por aí, a cota de tela está presente em vários países do mundo, inclusive no amado EUA dos liberais latinos.
Contudo, nem tudo são flores quando o assunto é América Latina, Brasil. Sim, houve um aumento de público nos cinemas em 2024 e a tendência se mantém em 2025, ainda mais com o novo filme do Kleber Mendonça Filho, "O Agente Secreto", que estreará no fim ano em novembro e levará uma multidão aos cinemas para assistir ao mais novo longa de um diretor premiado que terá como sua grande estrela Wagner Moura, o ator baiano que é um dos maiores talentos nacionais do século XXI. Só que o cinema nacional não é feito apenas por filmes graúdos como o do Kleber, nem como "Ainda Estou Aqui", há também projetos menores como "Oeste Outra Vez", um filme que mal teve espaço nas salas do Brasil durante sua estreia por conta do lobby hollywoodiano.
Outro caso que noticiamos aqui foi o de "Homem com H", a cinebiografia do genial Ney Matogrosso, mesmo com números bons e estáveis na bilheteria, perdeu quase 80% das salas no fim de maio, enquanto "Karatê Kids Lendas", que teve uma perda muito maior de bilheteria, só perdeu apenas 20% das salas. Ainda teve o caso do filme ter ido parar no streaming apenas 45 dias após o seu lançamento, tudo isso numa plataforma que se recusa a pagar Condecine e usa seu poderoso lobby para garantir tal posição.
Outra questão a ser falada quando o assunto é acesso aos cinemas é que para além de todo o ponto da luta pelo espaço do cinema nacional nas salas espalhadas pelo país, é preciso apontar que a maioria das salas de cinema no Brasil continuam concentradas nas grandes cidades, principalmente capitais. Só o estado de São Paulo detém quase 1/3 das salas de cinema de todo o país. Dados do IBGE em 2019 apontavam que quase 40% da população brasileira não tinham acesso a um cinema, uma realidade muito presente em cidades pequenas, até mesmo médias.
Diante de tudo isso, ainda temos um PL de regulamentação do streaming cheio de furos que é uma mãe para com as empresas de streaming. Não nos levem a mal, ficamos felizes com o aumento das pessoas indo ao cinema, do aumento da fatia da participação do cinema nacional neste crescimento, mas é necessário efetuar uma leitura minuciosa e pé no chão dos dados para entender suas nuances, não podemos chegar aqui e alardear que o cinema nacional voltou e que tá tudo bem, pois isso seria uma grande mentira para com nossos leitores, com os trabalhadores do setor e para com muitos realizadores que não têm o espaço que um "Ainda Estou Aqui" teve. Nosso maior compromisso é com a verdade.
Sobre o audiovisual nacional e suas questões, Thiago Guimarães, o Ora Thiago, lançou um vídeo maravilhoso esta semana sobre o assunto, é muito importante fazer esse material chegar ao máximo de pessoas possíveis. (No TelaViva)
Cinema e Uma Revolução em Curso
No final da década de 1960 em boa parte do mundo aconteceram movimentos estudantis bastante significativos, que mobilizaram boa parte da sociedade civil e intelectuais se somando a essas mobilizações, que não ficaram apenas marcada pelos acontecimentos na França em maio de 1968, que quase derrubou o governo do general Charles de Gaulle, mas sim em diversos países, no mesmo ano, como no México com as mobilizações estudantis que resultaram no Massacre de Tlatelolco, resultando em centenas de mortos. Muito bem representado no filme “El Grito”, de Leobardo López Arretche, 1968. Disponível no YouTube
No Brasil, os movimentos estudantis também foram significantes e se tornaram um dos motivos para os golpistas militares decretar o AI-5. Nos EUA, também os jovens se rebelaram por meio de movimentos feministas, da comunidade negra, indígena e LGBTQIAPN+.
Toda essa efervescência política, intelectual, cultural que motivava muitos jovens a se rebelarem contra um conservadorismo e todo um sistema opressor. Contraditoriamente esses jovens eram conservadores, muitos eram machistas, LGBTfóbicos, racistas, ou seja, os grupos de maior vulnerabilidade social não tinham representações políticas nem da esquerda e muito menos da direita, sendo obrigados a se organizarem politicamente e lutar por sua representatividade, como aconteceu com o movimento LGBTQIAPN+, com a Revolta de Stonewall, em Nova Iorque nos EUA em 28 de junho de 1969, devido às sucessivas violências polícias.
No Chile, o escritor e artista performático, Pedro Lemebel, um dos pioneiros de movimentos Queer na América Latina, protestava contra a homofobia da Esquerda Chilena em plena a Ditadura Militar na década de 1980.
Essa revolta de Lemebel está muito bem representada, de forma primorosa no filme “Tengo Miedo Torero", de Rodrigo Sepúlveda, de 2020, adaptado na novela homônima escrita por Pedro Lemebel. Que representa a vida também clandestina de uma travesti que se apaixona por um guerrilheiro. Um filme tecnicamente muito bem ambientado com um roteiro excepcional. Disponível no Prime Vídeo BR.
No Brasil os movimentos LGBTQIAPN+ em 2013 logram importantes conquistas no governo Dilma com o lançamento do Sistema Nacional de Promoção de Direitos e Enfrentamento à Violência contra LGBtQIAPN+, importante também para o combate a discriminação. A partir dessa visibilidade talvez possa explicar a virada de chave no cinema brasileiro que passa a incluir atores trans se tornando protagonistas de suas próprias histórias.
Aos poucos vem surgindo uma geração de realizadores trans, trazendo seus olhares sobre o mundo no qual convivem, ou sobrevivem. É o caso do filme “As Mães do Derick”, 2020, realizado por Cássio Kelm, um cineasta trans. Um filme realizado com muita sensibilidade reivindicando a palavra família para um conceito livre, como deve ser, longe de um conceito conservador cooptado pela extrema-direita. Infelizmente não encontramos o filme no streaming.
A palavra família na Sociologia tem o significado de agregação de indivíduos unidos por laços afetivos, muito bem exemplificado em “Casa de Baile: This is Ballroom”, de Juru e Vitã, 2024. A cultura Ballroom que surge no bairro do Harlem em Nova Iorque, como um movimento de resistência e empoderamento trans diante de uma sociedade excludente.
Era um local onde as pessoas trans negras se acolhiam, realizando seus bailes e concursos de beleza, formando uma grande família. Essa cultura chega ao Brasil em meados de 2015 e logo se torna um aquilombamento, um lugar de resistência de corpos dissidentes, tendo como manifestação a dança “Vogue” e as casas, verdadeiros lugares de acolhimento e proteção. O filme está disponível no Telecine Play.
Outro filme que traz a importância da amizade na vida de pessoas discriminadas por sua orientação sexual e abandonadas pela própria família, o aclamado “Baby”, de Marcelo Caetano, 2025. A trajetória de Baby tentando entender um mundo caótico e agressivo e que encontra acolhimento nas pessoas que também estão em fragilidade social. O apoio mútuo como forma de sobrevivência. Disponível no Telecine Play.
Em 2014, Nara Normande e Tião apresenta o curta-metragem, “Sem Coração”, uma história de amadurecimento, do descobrimento do corpo e de sentimentos de um adolescente da cidade por uma adolescente e uma região litorânea.
Um amor de verão nada convencional e que serviu de base para o elogiado longa-metragem de mesmo nome, de 2023, disponível na Netflix. O detalhe é que houve uma atualização no roteiro, ou uma mudança de mentalidade dos autores, que acabam colocando na trama central a descoberta de sentimentos entre duas jovens. Da para traçar uma mudança de postura em menos de 10 anos, talvez pelos atos da comunidade LGBTQIAPN+ em 2013, reivindicando visibilidade. Possivelmente. O que vemos é uma nítida evolução no cinema nacional em questão de temática, porém ainda falta a presença de cineastas trans de forma mais efetiva em nosso cinema. O curta-metragem “Sem Coração” está disponível no Vímeo
Revolução é transformação, é luta, é resistência e estamos presenciando através do cinema, mas notamos que tem um processo por trás dessas mudanças e tem a ver com o posicionamento e a organização política da comunidade LGBTQIAPN+ que reivindica o direito de ser, de amar, viver e contar suas próprias histórias.
Uma Revolução está em curso.
Bom filme a todes!
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano
Aliança entre Argentina, Paraguai e Nova Zelândia é lançada para distribuição de cinema de horror
Uma produtora argentina e neozelandesa (Black Mandala Films) e duas produtoras paraguaias (ZUMA Productions e Janus Media) se uniram para coproduzir o longa de terror “La Casa Angosta).
A aliança visa ampliar a distribuição do filme e do gênero ao redor do mundo, contemplando salas de cinema e plataformas de streaming especializadas.
Além disso, a parceria também tem grande envolvimento com a etapa de pós-produção, iniciada recentemente. O longa, dirigido Hernán Moyano e Armando Aquino, tem data de lançamento para o final de 2026. Ainda não é claro se há investimento público. (No GPS Audiovisual)
Venezuela entra para Aliança Internacional de Festivais de Cinema
Foi durante o 27° Festival Internacional de Cinema de Xangai que foi noticiado que a Venezuela se junta como o 50° membro da Aliança Internacional dos Festivais de Cinema do Cinturão da Roda da Seda. A integração se deu por conta da assinatura de um memorando de entendimento entre a Fundación Cinemateca Nacional de Venezuela e a Aliança do Festival.
Este acordo pretende promover a cultura e a expressão artística venezuelana através do cinema. A Venezuela foi representada no evento pelo vice-ministro da Cultura Audiovisual, Sérgio Arria.
Que o cinema latino se dissemine cada vez mais pelo mundo, que o Sul Global possa enfrentar a hegemonia hollywoodiana através do companheirismo entre os que sofreram dos horrores do colonialismo e que ainda sofrem dos males do imperialismo. (No TeleSur)






