Simplificando Cinema #107
MinC convoca entidades do setor audiovisual para uma reunião sobre a regulamentação do streaming e dirigentes falam sobre alinhamento com a pauta defendida pelas associações
Com a repercussão da edição do último sábado da nossa newsletter (leia aqui) e da matéria publicada pela Folha um dia antes, o Ministério da Cultura se apressou para convidar as principais entidades do setor para uma conversa sobre a regulamentação do streaming.
Tentando passar panos quentes com o conteúdo vazado pela mídia, o secretário-executivo, Márcio Tavares, abriu o diálogo para defender os 6% da Condecine por Jandira Feghali e garantiu a defesa para que a deputada continuasse como relatora da pauta.
No entanto, as informações divulgadas pelo TelaViva divergem bastante do abordado por outros sites que também cobrem notícias sobre política e mercado audiovisual.
Em matéria divulgada pelo site Farofafá no último dia 22 julho, embora a defesa pública tenha sido a que deveria ser realmente defendida sempre, os bastidores apurados pelo portal dão conta de expor que vozes importantes do MinC voltaram a afirmar a dificuldade de se aprovar algo diferente do que já ficou acordado no tal jantar das últimas semanas.
Um dos dirigentes do Ministério chegou a perguntar para as entidades presentes se elas preferiram não ter regulamentação nenhuma a aprovar o proposto pelas plataformas, o que na opinião desta publicação acaba sendo o mesmo, afinal, se é possível descontar 70% da contribuição de 3% do Condecine e sem abrir mão da propriedade intelectual das obras, o setor vai permanecer da mesma forma que se apresenta hoje: lutando para sobreviver.
O dirigente em questão ainda pede para que as entidades pensem na resposta, de um jeito que fica claro a possibilidade de pressionar por um acordo pífio com o setor e encerrar o assunto para garantir uma “vitória” na pauta para o governo.
Embora nossa publicação já tenha sido ameaçada de processo publicamente duas vezes, seguiremos firmes no propósito principal que guiou a criação do Simplificando Cinema há 6 anos: defender o audiovisual brasileiro.
Exibidores defendem regulamentação de janela de exibição
Perante o desequilíbrio da cadeia produtiva do audiovisual brasileiro com a redução drástica da janela de lançamento de filmes do cinema para o streaming, chegando a ficar abaixo dos 50 dias, como foi o caso da cinebiografia do Ney Matogrosso, o setor de exibidores brasileiro pede uma regulamentação da janela no país.
O presidente da Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex), Marcos Barros, afirmou que "Historicamente, sempre existiu a janela de lançamento, com um prazo longo até que os filmes fossem para as locadoras, por exemplo. Mas o que se vê hoje é uma redução drástica nesse período, intensificada pelo streaming e pela pandemia". Com a redução dessa janela, as pessoas tendem a esperar a chegada dos filmes no streaming, causando prejuízos ao parque exibidor brasileiro.
Nem obras que contaram com recursos federais escaparam disso, é o caso de "Auto da Compadecida 2" e "Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa". Não bastasse não pagar Condecine, não contribuir com o desenvolvimento do audiovisual brasileiro, o streaming ainda se favorece de obras que contaram com recursos públicos, o que demonstra a farra que é a vida dessas plataformas por essas bandas.
Em emenda no PL 2.331/2022 do Streaming, o deputado federal Marcinho Lucena (PP-PB) propõe o aumento da janela para 180 dias no Brasil; já em relatório, a deputada Jandira Feghali (PCdoB - RJ), defende que a janela seja de 9 semanas entre o lançamento nos cinemas e a chegada no streaming. Barros diz que a média hoje no Brasil é de 45 dias.
É louvável que o setor de exibidores do Brasil esteja lutando para que a janela entre o lançamento de filmes no cinema e no streaming seja maior, como relatamos algumas semanas atrás, mesmo com bom público, Homem com H foi retirado de salas, chegando a Netflix, empresa que não contribui com o desenvolvimento do audiovisual brasileiro, pois não paga Condecine, em menos de 50 dias após o lançamento.
Contudo, é necessário lembrar que filmes independentes brasileiros ainda sofrem para chegar nas salas de cinema. Em parte pelo lobby operado pelos conglomerados que também comandam as plataformas de streaming, mas também pela ausência de incentivos à distribuição e comercialização, algo que não será sanado somente com a política da cota de tela.
Se grandes parques exibidores têm problemas com o streaming, imagine cinemas de rua que não estão em shoppings?! Como mais uma vez mostramos nesta newsletter, o streaming afeta a vários setores do audiovisual no Brasil, e não de uma forma positiva. (No TelaViva)
Cinema é Um Ato político
Uma mulher negra latino-americana como uma câmera na mão nos anos de 1960 é literalmente revolucionário, é profundamente político. A diretora e roteirista cubana, Sara Gómez, ou carinhosamente Sarita, foi essa mulher negra que viveu a façanha da Revolução Cubana e colheu seus louros e fez do cinema uma ferramenta política e anticolonial, servindo não somente a Revolução Cubana, mas sim, fazendo críticas ao próprio sistema tratando sobre o racismo e o machismo em Cuba.
Em seus filmes, transborda a alegria de novos tempos de dignidade e reconstrução de um país disposto a fazer justiça social, representado no curta-metragem “Iré a Santiago”, de 1964. Em seu único longa-metragem, “De Cierta Manera”, uma obra póstuma, finalizada após seu precoce falecimento, aos 31 anos, devido a uma crise asmática, em 1974, mostra a maestria de Sarita em trabalhar tanto com recursos do documentário quanto da ficção, construindo uma obra de cunho feminista, trazendo o protagonismo de uma mulher trabalhadora e independente.
Outro filme bastante emblemático de Sara Gómez é o média-metragem “En la Otra Isla”, de 1968, onde Sarita também atua no filme entrevistando trazendo questões do racismo em plena Revolução Cubana. E no singelo e muito bem executado, o curta-metragem “Guanabacoa: Crónica de mi Familia”, faz um mergulho em sua ancestralidade trazendo o protagonismo negro de uma família e suas memórias. Sarita também se apresenta no documentário intermediando a conversa com seus familiares, trazendo toda uma formação de costumes e musical que atravessam a vida de Sarita. Foi a primeira diretora do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC).
Quase toda a cinematografia de Sara Gomez, ao todo 15 obras estão na plataforma de streaming da FILMICCA. O dia 25/07 é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela. Tereza de Benguela liderou o Quilombo Quariterê no Estado de Rondônia no século XVIII.
O intuito das dicas de filmes de hoje, como já foi colocado no início do texto, é dedicado às mulheres negras cineastas latino-americanas e caribenhas que fizeram revolução com uma câmera na mão e entraram para a História.
Além de Sarita, outra grande cineasta caribenha, Euzhan Palcy, que nasceu na Martinica, um território ainda subordinado à França. Uma de suas principais obras é o longa-metragem “Sugar Cane Alley”, de 1983. Um dos grandes clássicos do cinema mundial que venceu diversos prêmios internacionais. Representa a trajetória de vida de um jovem que mora em uma região de monocultura da cana-de-açúcar, junto a sua avó que trabalha nos canaviais, ainda em condições análogas ao trabalho escravo. Sua única chance é o acesso ao ensino.
Infelizmente não encontramos no streaming para variar.
No Brasil temos a nossa querida Adélia Sampaio, com seu longa-metragem, “Amor Maldito” de 1984. A realização desse filme foi uma verdadeira luta e serviu para que a Adélia Sampaio entrasse para a História como a primeira mulher negra a realizar um longa-metragem. Além disso, outro pioneirismo também está na temática. O filme representa um caso jurídico em que uma mulher foi acusada por matar sua companheira. O filme está disponível no YouTube no Canal de Adélia Sampaio
Atualmente temos uma nova geração de mulheres negras que estão cada vez mais tendo oportunidades no audiovisual, porém falta muito para avançarmos e termos o mínimo de equidade social. Essas foram algumas dicas de filmes sobre nossas realizadoras latino-americanas.
Bom filme a todes!!
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano
Já está sabendo da novidade?
Agora seus projetos audiovisuais podem contar com uma consultoria e elaboração para os principais editais brasileiros e estrangeiros de cinema!
Com a Pantográfica, você pode escolher entre consultoria simples para uma análise técnica e imparcial sobre o seu material ou contar a experiência profissional para elaborar e acompanhar com você o andamento dos projetos para incentivos diretos ou indiretos.
Ficou interessado (a)? Acesse a página oficial da Pantográfica no Instagram ou mande um e-mail para contato@pantografica.com para obter mais informações
Mais de 6,7 milhões de horas dedicadas a filmes na Smart TV
Em levantamento feito pela Samsung Ads, departamento que cuida da publicidade nas Smart TVs da Samsung, revelou que o público brasileiro é engajado com filmes. O levantamento afirma que entre julho de 2024 e janeiro de 2025, mais de 6,7 milhões de horas de filmes na programação linear foram assistidas, colocando o gênero atrás apenas de esporte, notícias e novelas. Para o streaming o número se revelou muito positivo, já que 93% dos telespectadores de filmes usam a Samsung TV Plus e serviços pagos para ter acesso às obras.
Contudo, nada disso é surpresa para os nossos leitores e pessoas que cresceram vendo filmes na TV, principalmente a aberta, inclusive muitos filmes possuem um "sabor" de infância por conta das tantas vezes que passavam na Sessão da Tarde. Só que há uma diferença entre a TV convencional e o streaming: ela pagava os residuais aos atores, diretores e roteiristas pelos programas transmitidos lá.
Há também plataformas com décadas de história para medir audiência, diferente dos números free style soltos pelo streaming. O que 6,7 milhões de horas quer dizer? Os telespectadores assistiram aos filmes até o fim? Quantas pessoas viram? Os dados vagos e a parcimônia da nossa mídia mainstream estão entre as razões do sucesso do streaming por aqui. A empresa X diz que um quintilhão de horas da obra Y foram assistidas na plataforma, a mídia solta isso como um grande feito sem questionar pontos como: mas as pessoas viram até o final? Vocês contam segundos assistidos de episódios reproduzidos automaticamente? É tudo aceito de forma passiva.
Outro ponto sobre o streaming e as plataformas de VOD é que, ao mesmo tempo, que elas soltam relatórios positivos de lucros, falam de milhões de horas assistidas, atuam por debaixo dos panos para impedir o pagamento de Condecine via regulamentação do streaming, empacam o projeto com ajuda de parlamentares de direita, que operam na base das mentiras sobre aumento de preço pós-regulamentação.
Bom, a Netflix simplesmente sofreu um aumento de 400% em 10 anos, não há regulamentação no Brasil, tudo isso levando muita grana daqui e sem deixar riqueza, ajudar no crescimento do audiovisual brasileiro, além de profissionais mal remunerados. Então esperemos que esse sucesso de plataformas como a Samsung TV Plus, a TV que quer ser TV sem arcar com as obrigações da TV delimitadas em lei. Tem rabo de gato, mia como gato, anda como gato, mas não é gato? Não nesta newsletter. (No TelaViva)
Colômbia e Espanha assinam acordo de coprodução
Na segunda-feira, 14 de julho, Colômbia e Espanha anunciaram que assinaram um acordo para coprodução audiovisual entre os dois países.
A Colômbia é mais um país latino de língua espanhola que assina acordo com a Espanha focando em coproduções entre as duas nações. Com este acordo, os dois países produzirão longas e curtas para o cinema e outras plataformas.
Os projetos serão considerados nacionais tanto na Colômbia como na Espanha, o que facilita questões burocráticas e de acesso a recursos públicos em ambos os países. Notícia ruim para quem acredita que o audiovisual latino precisa dos Estados Unidos e seus enlatados hollywoodianos. Mais uma vez a América Latina mostra que sabe se virar só, além do que a história do século XX e XXI mostram que estaríamos muito melhores sem os ianques metendo o bedelho por aqui, seja nos assuntos que tangem o mercado audiovisual ou na geopolítica na totalidade. (No TaviLatam)
Netflix e Academia de Cinema do Chile afirmam aliança
Não é só no Brasil ou no México que a Netflix anda tentando interferir na vida pública que toma conta dos interesses nacionais do audiovisual.
Nesta última semana, os chilenos acompanharam o acordo entre a gigante do streaming e a Academia de Cinema do Chile, instituição responsável por escolher os filmes nacionais para as principais premiações de cinema do mundo, incluindo o Oscar, do qual o país já eternizou seu nome.
Assim como tentam fazer no Brasil, a Netflix vai investir em um programa de formação e desenvolvimento de longa-metragem, com foco em corrigir a disparidade entre profissionais masculinos e femininos, formando assim novas diretoras e roteiristas para o país.
Tudo poderia ser muito positivo se não soubéssemos que a intenção por trás de promover a formação profissional está, em suma, em orientar novos profissionais a terem o olhar hollywoodiano em cima das suas próprias obras, descaracterizando por completo o estilo narrativo e audiovisual do cinema latino-americano.
Vale lembrar que o Chile é um dos países que passaram a cobrar um alto IVA das plataformas, fixado a uma taxa de 19%. No entanto, este imposto não tem impacto direto no setor audiovisual, pois não vem atrelado com a possibilidade da regulamentação no momento, embora o país siga discutindo a possibilidade de investir ao menos 1% do orçamento público na cultura, uma realidade distante da brasileira. (No La Tercera)






