Simplificando Cinema #23
Regulamentação do streaming no Brasil está perigosa | Festival de Cinema de Lima amplia mostra de filmes peruanos | Mercado Livre lança plataforma de streaming gratuita na América Latina

A regulamentação do streaming está vindo aí, mas não do jeito que imaginávamos. Em um encontro com produtores audiovisuais na última quinta-feira (10), o senador Eduardo Gomes (PL-TO) garantiu o andamento do PL 2.331/2022, de autoria do senador Nelsinho Trad (PSD-MS) e do PL 1.994/23 do senador Humberto Costa (PT-PE), garantindo a resolução do assunto para os próximos meses e convocando ainda uma reunião com entidades e representantes das plataformas.
Embora os produtores pareçam ter saído do encontro satisfeitos, uma pesquisa no site do Senado sobre o PL que será posto em avaliação das comissões –e levado a conhecimento das entidades e plataformas– é uma destruição ao modelo de regulamentação proposto por Humberto Costa, sendo este o mais alinhado ao que a pauta necessitada e cada vez mais estimulado entre os países que já se regulamentaram.
Dentro do seu projeto de lei –elaborado com ajuda de lideranças do setor–, o senador Humberto Costa garantiu a cobrança de até 4% das receitas brutas das plataformas para o Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional) para aquelas empresas que possuem receita maior de R$ 70 milhões no país, o que abrange as maiores plataformas hoje em atividade.
No substitutivo apresentado por Eduardo Gomes e colocado para avaliação das Comissões, o senador elimina a cobrança progressiva do Condecine e estabelece uma taxa única de apenas 1% das receitas brutas, independente das receitas de cada plataforma.
Além de transformar a “regulação” para empresas multinacionais em um belo paraíso fiscal, a cobrança de 1% fixa pode ser onerosa para serviços pequenos e independentes que podem não ter como arcar com os custos do tributo todos os anos, daí a importância da alíquota progressiva proposta anteriormente por Humberto Costa, que eliminava a cobrança do Condecine para as plataformas com receita bruta anual de até R$ 3 milhões.
Mas se tudo até aqui já parece muito absurdo, o substitutivo consegue piorar ainda mais a situação. Sem garantias claras de que os direitos autorais e patrimoniais ficarão com as empresas produtoras brasileiras e seus respectivos autores, Gomes propõe a dedução de até 70% do Condecine cobrado caso as plataformas destinem o valor para capacitação técnica de profissionais e também para a produção ou ainda aquisição de direitos de licenciamento de produções independentes.
Ou seja, o que já era péssimo em 1%, com a possibilidade de redução da cobrança, é possível que grandes plataformas como Netflix, Amazon e outras garantam um pagamento ao FSA de apenas 0,3% anuais.
Quantos profissionais realmente serão impactados com a promoção de cursos de capacitação profissional? Algo de responsabilidade do Ministério da Cultura e que deveria ser obrigação do Estado promover, uma vez que necessitamos trabalhadores cada vez mais capacitados em todas as regiões brasileiras, não somente quem está inserido no eixo Rio-SP, localidades preferidas das grandes plataformas.
Além disso, o senador Eduardo Gomes acaba com os incisos propostos por Humberto Costa quanto a destinação de metade dos recursos recebidos através da taxação para o fomento de obras no Norte e Nordeste, podendo assim retomar o papel do FSA em ser abrangente o suficiente na diversificação do cinema brasileiro que chega nas telas do espectador.
Por fim, e com apoio claro do secretário-executivo do MinC em entrevista ao Tela Viva, Eduardo Gomes também elimina a garantia de cotas de tela as obras brasileiras em catálogo, substituindo a reserva de 20% proposta por Humberto para uma garantia de visibilidade “proporcional e razoável”, sabe lá o que isso quer dizer no fim das contas.
Vale tudo para agradar o Centrão, até mesmo virar as costas para o progresso necessário do audiovisual brasileiro.
Argentina promove mais uma edição do Festival Nacional de Cinema Infantil e Adolescente

Na última semana, o INCAA (Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais) realizou a 3ª edição do festival dedicado para crianças e adolescentes com forte temática sobre infância.
Durante a exibição dos filmes, os espaços de convivência também promoveram oficinas audiovisuais para as crianças, além de debates sobre a importância do audiovisual e da arte de modo geral.
Entre os premiados, o curta-metragem “La Guardia” levou o grande prêmio do CINE.AR, plataforma de streaming pública do país. (Nas redes do INCAA)
Festival de Lima amplia visibilidade de filmes peruanos
Considerado um dos festivais mais importantes para o cinema latino-americano, o Festival de Lima começou na última quinta-feira (10) com 12 títulos peruanos e outros 34 filmes latino-americanos.
Entre os títulos nacionais, o festival exibiu a versão restaurada do longa “La muralla Verde”, do cineasta Armando Robles, responsável por abrir as exibições da edição atual do Festival de Lima.
Já na seleção “Hecho en Peru”, os espectadores poderão assistir 8 obras nacionais. O incentivo do Festival de Lima ao cinema do país tem tido grandes transformações para a produção local, em que cresce ano após ano a presença peruana no maior evento de cinema do país.
A edição, que infelizmente será totalmente presencial, tem incentivo direto da DAFO (Dirección Audiovisual, la Fonografía y los Nuevos Medios), divisão que cuida do audiovisual peruano dentro do Ministério da Cultura do país. (No Latam Cinema)
Cinema de Animação na América Latina
Em 2021 uma iniciativa bastante significativa do Cinema da USP (Cinusp) lançou a mostra “Animações de Nuestra América”, realizada no mês de agosto com curadoria de estudantes da Escola de Comunicações e Arte, ECA-USP. Ela foi um exemplo da ressignificação da utilização das técnicas do cinema de animação para mostrar as nossas próprias histórias, da diversidade do povo latino-americano e da realidade de acordo com seu tempo.
A importância do cinema de animação em levar histórias e estéticas locais, é um fator crucial na representatividade, de inclusão, de pertencimento, de consciência, de possibilidades diversas, principalmente com o público infantil e pode se tornar uma importante ferramenta de formação de público e de identidade.
Hoje temos um número expressivo de produções de animação em toda a América Latina e vem crescendo, apesar das dificuldades. Muitas dessas produções acabam tendo destaque internacional como é o caso do curta-animação chileno “Historia de Un Oso” (No Youtube), de Gabriel Osorio Vargas, que levou o inédito Oscar de melhor curta-metragem de animação de 2016 para o Chile.
O curta-metragem trouxe uma história bastante lúdica da catástrofe da ditadura militar chilena sobre uma família, utilizando o Urso como alegoria. De fato o Chile tem se destacado no cinema de animação e mais recentemente com o curta “Bestia”, de Hugo Covarrubia.
O filme foi selecionado para o Oscar de Melhor Curta-metragem de Animação em 2022 é uma das melhores obras cinematográficas apresentada em 2021/2022. Também teve como tema a ditadura no chile, contando a história de Íngrid Olderöck, uma agente da DINA que usava cães como prática de tortura.
Outra dica para conferir a potência do cinema de animação do Chile é o longa “La Casa Lobo”, da dupla Joaquin Cociña e Cristóbal León (2018), também premiadíssimo trabalho, com técnicas impactantes de animação, apresentando uma obra sombria sobre a Colônia Dignidad, uma verdadeira seita, formada em sua maioria por famílias de imigrantes alemães, fundado no início dos anos de 1960 por um ex-militar nazista, no Chile.
Na ditadura chilena, a Colonia foi utilizada como centro de tortura e prisão. Pós ditadura de Pinochet muitas coisas foram descobertas sobre a Colônia Dignidad e seu fundador, Paul Schäfer, inclusive pedofilia, violência infantil, lavagem de dinheiro e outros graves crimes que levaram Paul Shäfer à prisão. No longa “La Casa Lobo”, traz os efeitos psicológicos do terror sofrido na Colonia Dignidad em uma jovem.
Outros países latino-americanos utilizam a animação para mostrar a diversidade de seu povo e a importância da cultura e seus efeitos na vida das pessoas, é o caso do curta-metragem boliviano “Abuela Grillo” (Gratuito no Retina Latina), de Denis Chapon, com uma linguagem lúdica conta uma história da crença do povo Ayoreo Boliviano. Mostra os efeitos da apropriação e da destruição dos recursos hídricos, tão importantes ao povo campesino, por forças capitalistas. Também mostra a força do povo em provocar profundas transformações na sociedade.
Representando a Colômbia temos o curta “Sek Buy” (Gratuito no Retina Latina), de Frank William Cayapur Delgado, sobre o povo Nasa do Sul da Colômbia. Para o povo Nasa o mês de junho se celebra o início do ano solar. O curta-metragem mostra a cultura desse povo através do olhar de uma menina.
Do Peru também temos muitos filmes sobre a diversidade cultural do país, um exemplo é o curta “Camaquen”, de Maria José Campos. Baseado na cultura Inca, da unidade do ser humano com a natureza, quando se separa ele perder sua alma, seu “camaquen”, capaz de adoecer o mundo.
Em Cuba, logo nos primeiros anos da Revolução Cubana, surge o ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica) e com ele um setor de animação que foi evoluindo com o tempo. Os primeiros filmes eram utilizados para o público adulto com forma didática sobre as mentiras contadas pela imprensa internacional sobre a situação de Cuba, o curta “La Prensa Seria” (youtube), de Jesus de Armas, 1960, trata sobre isso, sobre a manipulação da imprensa internacional que não dava voz ao povo cubano em plena Guerra Fria.
O Uruguai também se destaca mundialmente com seu cinema de animação, em “Anina” (Gratuito no Retina Latina), de Alfredo Soderguit Barbosa, 2013. Um longa-metragem de animação reconhecido internacionalmente e que mostra a vida de uma menina e os pequenos conflitos sociais que acabam mostrando um caminho de percepção infantil que vai amadurecendo a partir do momento que a criança vai compreendendo o mundo real.
No Brasil temos uma excelente e bem sucedida cinematografia de animação, com muitos destaques, um deles foi indicado ao Oscar de Melhor Longa-Metragem de Animação em 2016, “O Menino e o Mundo” (Gratuito no Itaú Cultural Play), de Alê Abreu, com trilha sonora de Naná Vasconcelos, também conquistou o Festival de Annecy, principal festival de filmes de animação do mundo, prêmio também conquistado pelo filme “Uma História de Amor e Fúria” (Netflix), de Luiz Bolognesi.
Em “O Menino e o Mundo”, traz a memória infantil saudosa, de bons tempos, de quem viu um mundo se transformar sem humanidade, sem compaixão, esse olhar ao mesmo tempo ganha forma em rabiscos infantis multicoloridos. Fabuloso.
O primeiro longa-metragem de animação brasileiro teve estreia nos cinemas em 1953. ”Sinfonia Amazônica” (Youtube), realizado por Anélio Latini. Levou seis anos para concluir o trabalho e usou aproximadamente 500 mil desenhos. O filme é constituído do making of e de diversas histórias da Floresta Amazônica.
Outro destaque é “Boi Aruá” (Gratuito no Itaú Cultural Play), de Chico Liberato, baseado na literatura de cordel, animação pioneira na Bahia, explorando o mito do Boi Aruá e a vida cotidiana do vaqueiro do Sertão Nordestino, de uma forma artística, com diversas simbologias.
Representando a diversidade dos povos originários temos diversos filmes disponíveis no Itaú Cultural Play, um deles “Mãtãnãg, a Encantada”, de Shawara Maxacali e Charles Bicalho, 2019. Sobre a mitologia do povo Maxakali, as ilustrações foram produzidas através de uma oficina de ilustração com os próprios Maxakalis.
Também encontramos trabalhos com representatividade negra que vem crescendo, “Meu Nome é Maalun”, de Luísa Copetti, 2021. Um filme que traz a importância da ancestralidade na vida de uma criança.
Temos uma grande produção de filmes de animação para explorar, aqui foram apenas algumas dicas para, quem sabe, abrir os horizontes de quem se interessar pelo assunto. É uma área muito importante que funciona muito bem no meio infantil e que precisa ser fomentado e cada vez mais diversificado.
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano no Twitter
República Dominicana leva delegação com 6 cineastas para Locarno
Sem tempo de parar de surpreender a região latina quando o assunto é cinema e audiovisual, os dominicanos também estão marcando presença no Festival de Locarno. Ao todo, foram escolhidos 6 cineastas que participaram em diferentes competências na área de mercado do festival.
Além do fomento para coproduções internacionais com a República Dominicana, os cineastas também participaram de reuniões sobre comercialização e distribuição internacional das obras que favoreçam o conteúdo dominicano.
Durante o festival, os dominicanos apresentaram três projetos em diferentes fases de execução. (No DGCINE)
Mercado Livre lança plataforma de streaming na América Latina
Ainda que especialistas digam que o futuro do streaming é ter menos plataformas, o Mercado Livre resolveu entrar nessa empreitada e recentemente lançou o serviço de streaming “Mercado Play”.
A novidade, que chegou de surpresa, conta com 1.600 títulos disponíveis para todos os públicos e até o momento operada de modo gratuito para usuários da Argentina, Chile e México.
Segundo o Mercado Livre, o objetivo é que a longo prazo sejam integrados catálogos de serviços como Disney+, Star+, HBO Max e Paramount+. As plataformas em questão já integram a lista de assinaturas que usuários podem ter acesso adquirindo o Nível 6.
A novidade deve chegar ao Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Uruguai em breve. (No GPS Audiovisual)
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