Simplificando Cinema #85
Ancine anuncia força tarefa para lidar com a malha fina | RioFilme vai injetar R$ 100 milhões no audiovisual carioca | Festival de Tiradentes tem retorno de R$15 milhões para a economia local
Na quarta-feira, dia 5 de fevereiro, a Ancine anunciou a criação de uma força tarefa que ficará responsável em analisar os 1.724 dos processos da Malha Fina, que foi uma iniciativa combinada entre MinC, Ancine e a Controladoria Geral da União, que pretende a fiscalização e o controle dos recursos públicos da Ancine.
Essa ação visa focar nos processos que podem prescrever e oferecer-lhes o tratamento adequado dentro das normas do Tribunal de Contas da União e da Advocacia-Geral da União. Esses 1.724 processos são frutos de um total de 5.358 processos de prestação de contas, sendo que 3.634 já foram homologados e arquivados.
Para os processos que não estão prescritos, a agência disse que trabalha em uma ferramenta de inteligência artificial para o reconhecimento dos devidos documentos fiscais. Esta é a alternativa encontrada pelos servidores para driblar a falta de atenção do poder público em abrir novo concurso.
Sem novas chamadas desde 2013, o último pedido feito pela agência em 2024 foi negado por conta da incompatibilidade da LOA (Lei Orçamentária Anual), sendo, junto a ANP (Agência Nacional de Petróleo), a única agência reguladora a não ter liberação para concurso. (No TelaViva)
Rio de Janeiro anuncia novos estímulos para o audiovisual
A empresa de fomento ao audiovisual carioca, a RioFilme, anunciou que injetará R$ 100 milhões nas competições nacionais de 2025 em parceria com a Ancine. O anúncio se deu no Palácio da Cidade, onde o governo anunciou que os editais começam em abril e contarão com verbas extras da prefeitura.
Segundo o presidente da RioFilme, Leonardo Edde, a estratégia é continuar crescendo visando fortalecer a produção do audiovisual carioca. O presidente da empresa também afirmou que pretende o crescimento dos eventos locais de cinema, assim como a ampliação da internacionalização do Rio como um cenário do audiovisual internacional.
Ainda segundo o presidente, o foco nas medidas que busquem diminuir as lacunas, citando como o exemplo o foco dado em 2024 às produções feitas por mulheres, pessoas negras e moradores das áreas com maior vulnerabilidade. (No Latam Cinema)
Festival de Cinema de Tiradentes injeta R$15 milhões na economia local
Com mais de 20 anos de história como referência mineira no audiovisual, o Festival de Cinema de Tiradentes fechou sua edição de 2025 injetando nada mais, nada menos do que R$15 milhões na economia local da cidade.
Ao todo, foram 250 empresas mineiras envolvidas no evento, o que gerou 2.500 postos de trabalho. No turismo, o impacto também foi altamente positivo: 20 pousadas tiveram ocupação máxima durante os dias do festival, que contou com a parceria de 15 restaurantes.
O impacto milionário em uma única cidade brasileira prova, mais uma vez, que o investimento público na cultura é bem mais relevante do que dizem as más línguas, já passando da hora de pensar este capital financeiro como prioritário, especialmente pelo seu baixo impacto ambiental. (No Tribuna de Minas)
A Semana do Cinema
Do dia 6 a 12 de fevereiro teremos a Semana do Cinema, tradicional evento em que os ingressos custam apenas R$ 10,00.
A iniciativa é da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (Fenec), com apoio da Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex). Redes como Cinemark, Cine Araújo, Cinépolis, Kinoplex e outras – incluindo o circuito de cinemas alternativos – participam.
Esta é uma forma de incentivar as pessoas a frequentarem os cinemas, mas que infelizmente são ações raríssimas, pois o preço elevado dos ingressos tem afastado cada vez mais o público das salas.
Outra questão importante é a localização dos cinemas, a maioria está concentrado nas capitais, principalmente em São Paulo. A falta de capilaridade dos cinemas também acaba incentivo a pirataria, uma alternativa encontrada pelos amantes do cinema para terem acesso às obras, mas a experiência na sala de cinema não tem nada igual. O filme é incompleto sem o seu espaço físico.
Em quase 130 anos de cinema, a experiência nas salas continua a mesma desde a exibição realizada pelos irmãos Lumière em 1895. Hoje a realidade e o contexto são diferentes, e quem imaginaria que o cinema seria um dos principais setores da economia de muitos países e que seria uma poderosa ferramenta ideológica, política e de colonização cultural. Hoje nossas dicas são para incentivar a ida ao cinema.
Infelizmente é raro ter na programação das grandes redes de cinema os nossos filmes nacionais, mas é uma boa oportunidade para quem ainda não assistiu “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles, nosso grande representante no Oscar, que vem liderando as bilheterias dos cinemas no país. O filme, vai além do entretenimento, representa as feridas abertas da ditadura militar e o grande diferencial do filme é mostrar a tortura eterna de ter um familiar desaparecido.
Temos outras opções no cinema como o longa catarinense “Alegria do Amor”, de Marcia Paraíso, que representa a história de uma professora que foge da violência provocada por empresas que tentam expulsar os quilombolas de suas terras e uma série de acontecimentos leva a professora a reencontrar seu passado e sua verdadeira família. Um filme emocionante, e está em cartaz no Cineshow em Florianópolis, no Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Norte.
No Rio Grande do Sul, o Cine Bancários voltou do recesso com três filmes nacionais na programação. Destaque para o longa gaúcho “Homens de Barro”, de Angelisa Stein, no Cine Capitólio, que também conta com uma programação com filmes nacionais, como “Luiz Melodia – No Coração do Brasil”, de Alessandra Dorgan, “Kasa Branca”, de Luciano Vidigal e “Salão de Baile: This is Ballroom”, de Juru e Vitã.
São Paulo e Rio de Janeiro também estão com uma programação com títulos nacionais, como o elogiado “Os Sapos”, de Clara Linhart, com o protagonismo da grande Thalita Carauta e “Baby”, de Marcelo Caetano. No Ceará, no Cinema do Dragão, continua em cartaz o longa colombiano “Alma Do Deserto”.
Confira a programação dos cinemas mais próximos de você. Se não tiver cinema em sua cidade, uma boa alternativa é sempre o velho e bom cineclube. O Cineclube é importante para circular a produção nacional em todas as regiões do país. Infelizmente, e injustamente, ainda é pouco valorizado.
Hoje a dica é essa, vá ao cinema ou crie o seu Cineclube. O importante é essa luta pelo cinema nacional, tão importante para nossa economia, para nossa cultura, diversidade e autonomia.
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano
Governo Milei revoga imposto de filmes internacionais e deixa Argentina vulnerável para concentração hollywoodiana
Em tempos em que a liberdade avança cada vez mais na Argentina, o cinema do país foi mais uma vez alvo do Milei e seu ódio pela cultura não estadunidense. Na última segunda-feira, 3 de fevereiro, o diretor do INCAA, Carlos Pirovano, revogou a resolução 2114/2011, responsável por estabelecer a cobrança de uma taxa para exibição de filmes estrangeiros.
Com a eliminação do imposto que era cobrado aos filmes estrangeiros como uma forma de promoção do cinema local, tendo como objetivo, segundo a resolução revogada, “o financiamento, o aperfeiçoamento e maior eficiência dos mecanismos de controle, fiscalização e atuação judicial" do instituto que fomenta o audiovisual local.
Segundo o ministro da Desregulamentação e Transformação do Estado, Federico Sturzenegger, a medida foi pensada na desoneração das salas de cinema do interior, já que o imposto era prejudicial a elas.
Contudo, se o problema fosse mesmo esse, não o fortalecimento dos grandes conglomerados hollywoodianos no país, bastava ter conversado e pensado numa maneira de aliviar esses impostos para exibidores menores, ao contrário de ter escolhido jogar a água do banho com o bebê ainda dentro da bacia.
A repercussão rápida sobre mais uma ação em benefício a indústria hollywoodiana, levou o diretor argentino, Julio Ludueña, a fazer duras críticas que repercutiu em matéria no jornal Página 12. Sem meias-palavras, o cineasta afirma categoricamente que a medida cumpre com o objetivo do governo atual em vender o mercado argentino para a indústria hollywoodiana, já que o cinema nacional não teria forças para competir.
Ludueña também relembra de caso semelhante ocorrido nos anos 50, período anterior a criação do INCAA e do qual o cinema argentino padeceu sob bloqueios para suas filmagens, podendo desaparecer aos olhos do público.
A medida e a afirmação do cineasta vem em meio de uma fortíssima crise na indústria hollywoodiana. Com uma taxa de desemprego chegando a 12,5%, as produções tiveram uma queda de 40% somente em 2024, número superior à crise da COVID em 2020/21, ao mesmo tempo que a China registra bilheteria bilionária em 11 dias em fevereiro de 2025, forçando os norte-americanos a explorarem (ainda mais) mercados importantes de países emergentes que carecem de regulamentações e são comandados por fantoches do trumpismo.
É difícil acreditar em um governo que atua diariamente contra trabalhadores e o setor nacional de audiovisual, que sofreu ameaças do Milei durante o período da campanha. E como mostramos na Newsletter #80, uma coisa que o governo Milei não está fazendo é trabalhar pelo setor de exibição da Argentina. (No LatinSpots)
Cinemas mexicanos têm queda de público com aumento dos preços de ingressos
Quase sempre lembrado pelas suas surpreendentes quase 8 mil salas de cinema abertas ao redor do país, o México assume com folga a liderança de maior mercado audiovisual da América Latina, mas os recentes aumentos nos preços dos ingressos pode começar a afastar seu público cativo.
Ainda tentando se recuperar dos prejuízos da pandemia, os exibidores mexicanos tiveram uma audiência de 1,37% menor do que o comparado com 2023, somando quase 16 bilhões de pesos mexicanos. Apesar de relevante, o valor segue ainda abaixo do conquistado em 2019, quando o setor fechou o ano com 19 bilhões de pesos mexicanos no bolso.
Parte do problema pode ser identificado pelos preços dos ingressos cobrados atualmente. O que antes custava uma média de 55 pesos mexicanos (equivalente a R$15), agora passa a custar 70 pesos (equivalente a R$20), mesmo em salas de cinema independentes, como a famosa Cineteca Nacional.
Em todas essas contas, quem mais sofreu foram os filmes nacionais. A queda de público foi de 19,61%, somando 621 milhões de pesos na bilheteria. (No El País)
Novo diretor nacional das telecomunicações do Uruguai quer regulamentar o streaming
Depois de uma novela que se arrastou por quase 5 anos de mandato do presidente Lacalle Pou, as modificações na Lei dos Meios de Comunicações do Uruguai foram aprovadas em 2024.
Entre os centos de absurdos adicionados, os mais graves foram a revogação do limite de licenças para que uma única empresa tenha posse de grupos de mídia (incluindo rádio e televisão na mesma conta), possibilidade de compra de empresas de mídia nacionais por conglomerados estrangeiros e o enfraquecimento da Antel, a estatal de telecomunicações do país, que se transformou em uma provedora de estrutura para rede de internet de empresas privadas, principalmente plataformas de streaming.
Com uma nova vitória do Frente Amplio nas urnas no fim de 2024, o setor voltou a ter esperanças de ser fortalecido novamente, e o que depender do novo diretor nacional das telecomunicações, Pablo Siris, este sentimento não será em vão.
Em entrevista divulgada pelo jornal La Diaria esta semana, Siris é categórico ao se posicionar contra as mudanças feitas (e pressionadas) por Lacalle para beneficiar grupos estrangeiros no país. Citando a falta de diálogo com a oposição – que está prestes a tornar o novo oficialismo –, Pablo Siris pretende dar prioridade para a legislação e não descarta a revogação das principais mudanças no marco regulatório.
O novo diretor também aproveitou a oportunidade para deixar um recado direto para as plataformas de streaming que atuam no Uruguai: precisam começar a cooperar com o mercado uruguaio.
No momento, o plano é pensar em medidas que protejam as obras nacionais no catálogo, como a criação da cota de tela e facilitação das buscas por títulos uruguaios, o que já forçaria as plataformas a terem que licenciar conteúdo e, consequentemente, contribuir para a economia audiovisual local.
Entretanto, Siris também não descarta o estudo de impacto econômico do streaming no país, citando também a possibilidade do novo governo começar a cobrar contribuições para o fomento do audiovisual.
Caso os dois cenários se concretizem, o Uruguai pode se tornar pioneiro nas políticas regulatórias do streaming na América Latina, visto que alguns vizinhos como Chile e Colômbia cobram apenas a contribuição de impostos nacionais (IVA), não tendo impacto direto para suas indústrias audiovisuais. (No Observacom)










