Simplificando Cinema #89
Plataformas de streaming lançam nova associação no Brasil para tentar enfraquecer regulamentação | Filmes brasileiros formam 30% da venda de ingressos na Ingresso.com
A semana começou tal como o meme “disappointed but not surprised” quando o site TelaViva divulgou com exclusividade uma entrevista com o advogado e diretor-executivo da Strima (Nova organização de lobby que envolve Netflix, Globoplay, Max, Prime Video e Disney+), Luízio Felipe Rocha, e os objetivos políticos do nefasto grupo em relação a toda discussão sobre a regulamentação do streaming no Brasil.
Com um escritório físico em Brasília e uma articulação, até então, por debaixo dos panos na esfera política, Rocha abriu detalhes sobre o intuito do grupo em relação ao futuro das plataformas.
Em um primeiro momento, o advogado afirma que as plataformas de streaming (em suma internacionais) estão fortalecendo o audiovisual do país. Em uma rápida pesquisa com termos-chave no Google, podemos verificar que a Strima começa mentindo para você.
Com mais de 10 anos de atuação no Brasil, o catálogo de obras brasileiras nas plataformas internacionais representa menos de 10% do total que pode ser acessado diariamente nas nossas casas. Isso com os “esforços” mínimos de trazer a “primeira novela do streaming” e originais que vão morrendo na praia por falta de divulgação.
Além disso, como é possível que o streaming esteja fortalecendo o audiovisual brasileiro se roteiristas já vieram a público revelar condições degradantes de trabalho, que incluem o roubo de direitos autorais, cargas horárias abusivas e salários abaixo da média?
Quanto ao impacto regulatório, Rocha afirma que não é possível continuar o debate sem reconhecer a importância da pauta, mas (sempre ele) que a Strima busca criar um espaço de consenso (qual?) e que é preciso levar em consideração os diferentes modelos de plataformas (ainda sem especificar quais são eles).
Nas lacunas –por óbvio– destrinchadas pelo advogado durante a entrevista, fica claro que o objetivo não só é aprovar uma regulamentação prevendo 60%/70% de desconto da Condecine (como já está descrito em um dos textos regulatórios), como a nefasta associação também vê com péssimos olhos o entendimento do setor sobre a regulação europeia.
Neste sentido, Rocha afirma: “Não adianta apenas importar um modelo que tenha sido feito em outro país”. Nos perguntamos qual modelo ele se refere, tendo em vista que a regulamentação europeia é diversa e cada país tem suas próprias regras internas nesse sentido.
O que será que aflige o sono das plataformas no Brasil ao ver uma campanha organizada neste sentido? Seria a possibilidade de preservar direitos autorais aos roteiristas e incluir esses trabalhadores nos ganhos posteriores com a obra?
Ou uma das cláusulas sobre licenciamento de originais com data de vencimento e total decisão de renovação por parte dos mesmos trabalhadores que hoje sofrem em condições degradantes?
Ou será que ainda é o medo de ter que lidar com uma cota de tela obrigatória e exigências de investimento em produções realmente independentes que não mais dariam para justificar que o catálogo é uma escolha de algoritmo? São tantas questões que a Strima não nos responde nesta entrevista.
Para fechar com chave de bosta, Luízio consegue ser baixo o suficiente para cortar a bola e invocar a suposta tributação em cima das mensalidades do serviço, algo que para alguém tão preocupado que o Brasil vire União Europeia, já deveria saber que essa realidade não se sustenta para além dos delírios da extrema-direita brasileira. É esse o diálogo que querem formalizar?
Filmes brasileiros somam mais de 30% da bilheteria da Ingresso.com
Com uma campanha de altíssimo nível e vitória na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar, "Ainda Estou Aqui" possui muitos louros para se gabar. Segundo a plataforma de venda de ingressos, a Ingresso.com, nos três dias que sucederam à transmissão do Oscar, o filme premiado pela Academia vendeu 80% a mais que o número de ingressos da semana anterior a 97° Cerimônia do Oscar.
Considerando os três últimos anos, a procura por filmes nacionais continua a crescer, sendo importante pontuar que tivemos um período de 8 anos entre o golpe e retorno da política de cota de tela em 2024. Em 2023, apenas 2,2% dos ingressos vendidos na plataforma Ingresso.com foram para filmes brasileiros, sendo 8,9% em 2024, e os dois primeiros meses de 2025 tiveram 30,2% das vendas totais de ingressos para filmes brasileiros.
Em 2023 o destaque foi de "Minha irmã e eu", filme que estreou no final do ano e se manteve aquecido no começo de 2024. Já os dois grandes destaques do ano passado na venda de ingressos para filmes nacionais foram "Ainda Estou Aqui" e o "Auto da Compadecida 2".
Já nesses dois primeiros meses de 2025 o pódio fica com "Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa" em terceiro, "O Auto da Compadecida 2" em segundo e "Ainda Estou Aqui" em primeiro entre os três filmes nacionais que mais venderam na plataforma. O filme dirigido por Walter Salles é o filme que mais vendeu ingressos no começo de 2025 na Ingresso.com, seguido por "Mufasa - O Rei Leão" e "O Auto Compadecida 2" fechando o pódio.
Como sempre foi defendido nesta newsletter, com uso de dados, o brasileiro sempre gostou e procurou cinema nacional, tendo bons anos das produções nacionais desde a instauração da cota de tela (mesmo que o decreto tivesse seus problemas e limites).
Passamos por ataques no governo golpista de Temer, e nos anos do Bolsonaro a situação se agravou com a pandemia, tendo que lidar com a falta de desejo político do governo federal em ajudar o setor, principalmente os menores, o que ajudou a jogar muitos das nossas produtoras e profissionais no colo do streaming, que hoje lutam contra o espaço de produções verdadeiramente brasileiras em suas plataformas, inclusive com a desculpa esfarrapada que não conseguem controlar o algoritmo que criaram, como se fôssemos bobos para acreditar que eles desenvolveram a Skynet, não uma má vontade imensa de ter conteúdo que pertença ao Brasil e fale do nosso país aparecendo em destaque em suas plataformas.
Por mais que haja limites no que "Ainda Estou Aqui" possa fazer para o cinema nacional, ele mostrou que os brasileiros vão ao cinema em busca de filmes que falem da nossa história. (No TelaViva)
BNDES apoia plano de internacionalização da produtora Conspiração Filmes
A produtora Conspiração obteve do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, BNDES, a aprovação do seu plano de negócios no valor de R$32 milhões. Este valor financiará o desenvolvimento, produção, comercialização e internacionalização de obras audiovisuais, além de investimentos em infraestrutura, com aquisição de equipamentos que ajudarão no aperfeiçoamento na produção e pós-produção das obras.
A ajuda ao audiovisual nacional é importante e nós do Simplificando Cinema sempre cobramos mais do governo neste quesito, contudo precisamos questionar como esse financiamento se deu.
Este dinheiro seria muito mais bem alocado em uma política pública sólida de internacionalização das produções nacionais, algo que abarcasse todo o Brasil, as suas cinco regiões. Quando o BNDES aparece e entrega esse montante a uma única produtora, ele manda o recado claro às demais, principalmente as que lutam para se manter abertas e com as contas em dia: "Vocês querem nossa ajuda? Então cheguem ao Oscar!". Porém, é necessário questionar como tais produtoras chegarão a esses patamares sem ajuda.
O sucesso de "Ainda Estou Aqui" não foi algo meramente por sua obra, que é um grande filme que conta com uma atuação brilhante da Fernanda Torres, mas também por conta do dinheiro que foi colocado durante sua distribuição e comercialização, coisa que outro grande filme nacional como "Marte Um" não teve.
Este não é desejo de coisas más no futuro da produtora Conspiração, pelo contrário, desejamos que ela continue crescendo e fazendo grandes filmes nacionais, mas é necessário apontar para o governo federal e dizer que se faz mais que necessário a criação de uma estrutura onde outras produtoras nacionais que possuem filmes de qualidade possam alçar grandes voos com suas obras. Não estamos pedindo que o governo abata os pássaros que conseguiram alçar vôos grandes, mas sim que ele possa garantir que mais pássaros também possam voar. (No TelaViva)
Mulheres e Sororidade: Renovação de um Olhar e da Cinematografia
Nos últimos dias nas redes sociais, novamente tivemos muita baixaria, para variar, mas também discussões que nos fazem pensar quanto ao olhar dos homens sobre as mulheres e suas histórias, estou me referindo a “Anora”, de Sean Baker, o filme vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2025. Ainda vivemos em um mundo machista e conservador e esse olhar da realidade pode muitas vezes esquecer-se das condições e das lutas das mulheres por igualdade e reconhecimento. O audiovisual pode ser um grande aliado ou um grande inimigo dessa luta. A luta de mudar esse olhar patriarcal deve ser de todes.
Nos últimos anos foram realizados filmes, com uma maior frequência, que trazem uma representação que renova as narrativas sobre as mulheres. Não somente a narrativa, como a nossa cinematografia, acaba sendo renovada. Essa empatia e solidariedade da mulher dirigindo, protagonizando e contando suas próprias histórias se chama sororidade. Infelizmente o número de mulheres na direção de filmes é ainda muito preocupante e quando falamos de mulheres negras, trans e indígenas, essa representação é ainda mais desanimadora. É necessária para a renovação do nosso olhar, das nossas histórias, essas narrativas femininas, essas representações.
Hoje vamos indicar alguns filmes que comprovam essa renovação que a sororidade proporciona. Vamos começar indicando uma das grandes obras dos últimos anos do cinema latino-americano, “Clara Sola”, de Nathalie Álvarez Mesén, 2021. O longa-metragem costa-riquenho, premiado em diversos Festivais, representa a história de Clara Sola, uma mulher que faz parte de uma natureza não compreendida. Por ela nascer com uma atrofia na coluna e não ser um padrão útil para tal sociedade, ela vive reclusa, não usufruindo de uma vida normal de qualquer mulher de seu meio.
Essa força da natureza no qual Clara é fortemente ligada, quase que sobrenatural, segue as evocações de seu corpo, sempre reprimido pelas pessoas próximas. Um filme sublime com um ar poético te desafia com uma narrativa que cresce, a partir do envolvimento de Clara com todos os personagens que aparecem no filme, até o desfecho de ruptura e renascimento.
Traz uma forte carga da natureza feminina, sua ligação com a vida e seu forte embate com uma sociedade que oprime o feminino. Um grande filme. Disponível no Reserva Imovision.
Outro filme costa-riquenho que representa o quanto a sociedade oprime os corpos femininos é o longa-metragem “El Despertar de las Hormigas”, de Antonella Sudasassi, 2019. O filme representa uma mulher sendo sufocada pelo que a sociedade espera que ela seja. O filme nos faz refletir o quanto a sociedade patriarcal interfere na vida e no destino das mulheres. O filme está disponível para aluguel no Google Play e na Apple TV.
“La Botera”, de Sabrina Blanco, 2019, é um filme sobre amadurecimento. Uma adolescente que está crescendo, que vive com seu pai, em uma comunidade ribeirinha, em fragilidade social e vê o mundo de forma independente e sonha em ter seu próprio barco e ter seu próprio ganho, fazendo a travessia de pessoas de uma margem à outra, de um rio. Infelizmente o filme não está mais no streaming.
Também temos uma excelente dica do nosso país, "Um Dia com Jerusa", de Viviane Ferreira, 2020. Um filme que vai além da sororidade e liga duas gerações de mulheres negras pela ancestralidade. O filme está disponível na Netflix.
Para fechar nossas dicas do sábado, mais um filme nacional, “Mar de Rosas”, de Ana Carolina, 1977. Segundo a própria Ana Carolina, foi seu primeiro longa-metragem de ficção com inspiração na relação com sua própria mãe. Primeiro filme de uma trilogia. O filme vai ganhando intensidade sem perder o fôlego, sobre a Felicidade que não se contempla, em um país ainda sob a decadente ditadura militar e que no ano de lançamento do filme, em 1977, sancionava a lei do divórcio. O filme nos apresenta duas personagens centrais, a filha (Betinha), indesejada e sem uma referência na vida e uma mãe (Felicidade), frustrada e revoltada com o mundo e com o que a sociedade espera que ela seja. Uma excelente comédia caótica de um país de conservadores hipócritas. Filme disponível no SPcine Play.
É sempre uma satisfação indicar filmes que possam depurar nossos olhares ou causar uma vontade de compreender melhor os universos apresentados. Espero que os filmes causem esse efeito e que instiguem mais a procura de nossas próprias narrativas, representadas através de nossas obras cinematográficas. Um ótimo sábado a todes e um bom filme!
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano
Festival de Gramado abre inscrições para filmes brasileiros para sua edição de 2025
Na última segunda-feira, dia 10 de março, foram abertas as inscrições para o 53° Festival de Cinema de Gramado, que acontecerá entre os dias 13 e 23 de agosto deste ano.
Neste ano a edição será 100% presencial. Serão selecionados até oito longas brasileiros e doze curtas nacionais. Os filmes para essas categorias podem ser inscritos neste link. A data limite para o envio das fichas é 30 de março.
Nesta edição serão aceitos na competição do festival, longas de ficção, longas documentais e curtas produzidos por produtoras nacionais independentes finalizados a partir de maio de 2024. Longas de ficção e longas documentais não podem ter tido exibição comercial ou pública no Brasil, assim como os curtas devem ser inéditos no Rio Grande do Sul.
O período de inscrição para os curtas e longas gaúchos será em abril, com datas divulgadas em breve. As produções gaúchas podem ser inscritas na mostra das obras brasileiras.
As obras vencedoras também levarão um prêmio em dinheiro, assim como os prêmios e troféus concedidos pelo festival e a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Haverá também mostras paralelas fora do circuito da competição (a programação será definida pela organização do festival). (No TelaViva)
Megacable cria plano com inclusão da Amazon Prime Video no México
Megacable, empresa mexicana de telecomunicações, lançou um novo pacote que oferece TV paga, internet e telefonia fixa com uma assinatura do Amazon Prime, que inclui o Prime Video, o serviço de streaming da Amazon.
E a TV Linear aparece mais uma vez nessas parcerias entre as empresas de telecomunicações e o streaming. No México, o Prime Video tem direito aos jogos em casa do Chivas de Guadalajara, cidade onde a Megacable tem sua maior cobertura. Assim como no Brasil, uma das primeiras grandes parcerias do Prime Video se deu com a TV Linear via o Premiere, canal da Globo que oferece várias das competições do futebol brasileiro, de estaduais, a Copa do Brasil e os campeonatos nacionais da primeira e segunda divisão de futebol.
A mesma TV que o streaming jurou destruir, cheia das publicidades que eles diziam estar com seus dias contados, a TV Linear foi uma das principais escadas que esse modelo de negócios que se popularizou na última década, usou para entrar na casa de milhões de pessoas. Como já noticiamos em outras edições desta newsletter, a TV linear é o elo entre o fim do streaming e o começo da TV 3.0, assim como o moderno e inédito modelo de negócios que amontoam vários canais em pacotes escolhidos conforme as necessidades dos seus clientes.
Quem diria que séries desinteressantes e cancelamento das poucas que deram certo não conseguiram manter a audiência do streaming neste modelo de negócios, e na América Latina a TV linear é um produto que atrai uma multidão já faz umas boas décadas. (No TaviLatam)
Morelia divulga primeiro diagnóstico sobre o setor cinematográfico da região
Com dados coletados entre março de 2024 e janeiro de 2025, a Film Commission de Morelia, no estado de Jalisco, no México, conseguiu levantar os dados de 197 pessoas que trabalham com audiovisual na região.
Os trabalhadores possuem idades entre 20 a 40 anos, sendo 57% homens, 41% e 3% identificados com outros gêneros. Deste montante, 82% afirmaram que trabalham em alguma esfera do audiovisual, seja em produções cinematográficas, conteúdos online, etc. outros 18% afirmam que não conseguem entrada neste mercado de trabalho, enquanto outros 34% já possuem mais de 10 anos de experiência.
Quase 70% dos entrevistados pela pesquisa afirmam que trabalham no máximo em 3 projetos por ano, mas ainda assim, 80% dos consultados possuem uma remuneração abaixo da média, o que não permite que vivam somente do audiovisual.
Os dados coletados e divulgados fazem parte dos novos projetos da Film Commission de Morelia para entenderem como devem melhorar a oferta de emprego, renda e formações técnicas para a cidade. (No Latam Cinema)





