Simplificando Cinema #90
Lei Aldir Blanc sofre corte de 84% nas verbas | "Vitória", longa de Fernanda Montenegro, ultrapassa público de "Capitão América" na primeira semana | Senado avança debate da regulação do streaming
Parece piada, mas é só mais um dia de péssimas notícias para a pasta cultural: uma semana após a nota oficial garantindo a integridade dos recursos da Lei Aldir Blanc, o relatório aprovado pelo Congresso Nacional na última quinta-feira (20/03) deu a conhecer que a Política Nacional de Fomento terá um corte de 84% das verbas.
Ou seja, dos R$ 3 bilhões garantidos por lei anualmente até 2027, apenas R$ 480 milhões estarão disponíveis para atender diversos agentes culturais ao redor do Brasil.
O Ministério da Cultura, por sua vez, segue atuando como a mocinha coitada de uma clássica novela mexicana exibida muitas vezes pelo SBT, sempre passando panos quentes para as decisões maiores que afetam diretamente a Cultura.
Dessa vez, o secretário-executivo da pasta, Márcio Tavares, se encarregou de querer prestar serviço para informar que o governo vai trabalhar para garantir a totalidade dos recursos por meio do Decreto nº 12.409, ao mesmo tempo que informa, além da surpresa com os cortes, que o valor repassado ainda vai ser determinado pelo governo com base na execução do ano anterior.
Gostaríamos de lembrar a vocês que a Lei Aldir Blanc de 2024 sofreu um corte de R$ 1,7 bilhão em novembro, deixando editais ainda em aberto e agentes culturais sem receberem o devido valor. Na ocasião, quase o mesmo papo foi repassado para o setor: a suposta readequação das verbas para 2025.
Alguém ainda acredita que a pasta cultural vai receber os R$ 3 bilhões garantidos por lei? (No G1)
“Vitória”, novo longa de Fernanda Montenegro, supera público de “Capitão América” no primeiro fim de semana
Como noticiado na newsletter #89 do Simplificando Cinema, a procura por filmes nacionais cresceu em 2024 na plataforma online de compra da Ingresso.com. E 2025 continua agitado para o cinema nacional. A estreia de "Vitória", último filme da nossa magnânima Fernanda Montenegro, chegou com os dois pés na porta.
Presente em 650 salas no lançamento, o drama atraiu 218 mil pessoas entre os dias 13 - 16 de março, arrecadando R$ 4,7 milhões segundo os dados da Comscore e Filme B.
"Vitória" é mais um filme original Globoplay, produzido pela Conspiração com coprodução da MyMa ma Entertainment e Globoplay e apoio Globo Filmes, a distribuição fica a cargo da Sony Pictures.
Além dos bons números, "Vitória" conseguiu outro grande feito ao desbancar "Capitão América: Admirável Mundo Novo", que arrecadou R$ 3,17 milhões e levou um público de 145 mil pessoas às salas de cinema. É necessário ressaltar que Capitão América já estava há cinco semanas em cartaz e com muitas salas garantidas graças ao lobby da Disney no Brasil. "Vitória" ultrapassou o filme da Marvel apenas em seu primeiro final de semana em cartaz. Ficaremos atentos a como os liberais usarão seu eterno argumento muleta sobre a oferta e demanda neste caso.
Contudo, nem tudo são flores. Sim, é um filme nacional, com uma das maiores, se não, a maior atriz brasileira de todos os tempos, é bom ver ser um desempenho de um filme feito aqui após tantos anos de desmonte desde o golpe contra a Dilma, passando pelo governo Bolsonaro e a pandemia, mas é necessário apontar que é um blockbuster brasileiro, um filme da Globo com distribuição da Sony.
Mais uma vez pregamos que não somos contra esses filmes, mas alertamos em como apenas produções graúdas obtém esses resultados por conta da falta dos incentivos às produtoras independentes e a falta de uma distribuição forte dessas produções.
Sempre ficaremos felizes com filmes nacionais obtendo sucesso, mas enquanto esses acontecimentos se resumirem aos filmes graúdos e com grandes investimentos privados por trás, abriremos esse grande asterisco para falar que os independentes e produtoras menores de também merecem essa oportunidade e cabe ao governo garantir isso através do MinC, Ancine e políticas públicas para esses segmentos. (No TelaViva)
Senado avança no debate pela regulamentação do streaming no Brasil
Um estudo técnico feito pela Consultoria Legislativa do Senado revelou o que já sabíamos e sempre falamos aqui no Simplificando Cinema, há uma grande assimetria entre a regulamentação de plataformas de Vídeo sob Demanda, Video on Demand em inglês, VoD, em relação à TV aberta e paga.
O estudo ressaltou a urgência da aprovação de uma lei que regulamente os serviços prestados à população brasileira pelas plataformas de VoD. Este trabalho foi elaborado por Marcus Martins, consultor legislativo do Senado, com objetivo de orientar e subsidiar o trabalho do legislativo brasileiro.
O estudo aponta que com o crescimento das plataformas de VoD entre o público da TV aberta e fechada, ele não pode continuar sem um marco regulatório que imponha obrigações aos servidores e que possa assegurar os direitos dos usuários. Enquanto a TV paga e aberta paga impostos, tem a obrigação de manter uma cota de tela mínima para conteúdo nacional, assim como a obrigação no investimento de obras brasileiras, o VoD não tem tais obrigações, por isso tais medidas estão presentes no PL 2.331/2022 e no PL 8.889/2017.
A secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, Joelma Gonzaga, na audiência pública no Congresso Nacional do Conselho de Comunicação Social, defendeu que as plataformas de VoD tenham que cumprir uma cota para produções independentes do Brasil, uma equivalência regulatória entre as plataformas e a obrigação de contribuição para o FSA, o fundo setorial audiovisual.
É importante que esse debate avance nos termos que serão mais benéficos aos trabalhadores do audiovisual brasileiro, as produtoras nacionais, principalmente as independentes que não contam com polpudos investimentos do BNDES.
As plataformas de VoD, principalmente o YouTube, se movimentam ativamente para que a regulamentação aconteça em seus termos, usando desde o velho e clássico lobby, ao terrorismo típico da extrema-direita brasileira ao criar pânico com mentiras como redução da qualidade das obras, fim da liberdade de expressão e outros clichês típicos de quem foge de uma regulamentação há mais de uma década. (No Observacom)
Amazon e SKY selam acordo no Brasil e mais alguns países da América Latina
A Vrio Corporation, empresa matriz da Sky Brasil e da DirecTV Latin America, anunciou uma parceria com a Amazon que permitirá que a Sky ofereça o Prime Video como um benefício adicional para seus clientes em sete países da América Latina.
Os clientes da Sky e do seu serviço de streaming, o Sky+, terão acesso a uma assinatura Amazon Prime que dá acesso ao streaming da Amazon, o Prime Video, assim como o Amazon Prime Gaming que oferece jogos mensais e o Amazon Prime Music, plataforma de streaming de música da empresa. A partir de abril todos os clientes da Sky/Sky+ terão acesso à assinatura da Amazon.
Já nos outros seis países da América Latina (Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Uruguai), logo mais a DirecTV Latin America oferecerá os mesmos benefícios da Amazon aos seus clientes.
A parceria entre as plataformas de streaming e de TV a cabo se estreitam cada vez mais num movimento que visa o horizonte da TV 3.0 e a aglomeração de todos esses serviços em um único lugar, convergindo na experiência média da TV, a mesmíssima plataforma que especialistas formados por canais que entendem tanto dos meandros do mercado da TV quanto nós do Simplificando Cinema entendemos de física nuclear, juraram que estava com seus dias contados. Bom, quem sabe daqui a setenta e duas horas. (No TelaViva)
Celebrando El Cine Boliviano
Alguém já imaginou o nosso país ter um Ministério das Culturas, Descolonização e Despatriarcalização? Talvez quando trocar de nome e se tornar Estado Plurinacional do Brasil. Algo impensável no atual contexto, mas se trata de um sonho real para o Estado Plurinacional da Bolívia e seu “Ministerio de Culturas, Descolonización y Despatriarcalización”, tendo como ministra Esperanza Guevara que, neste ano, homenageia o bicentenário de independência com diversos eventos culturais, celebrando o dia do Cinema Boliviano, ontem, dia 21 de março, inclusive com homenagens à cineastas e um anúncio de investimento no audiovisual implementando um fundo para a realização de 29 filmes, além de uma série de 5 filmes coordenados pelo cineasta boliviano, Jorge Sanjinés, segundo o próprio site do Ministério.
O dia 21 de março, “Dia del Cine Boliviano”, foi decretado no governo de Evo Morales em 2007, em homenagem ao padre jesuíta, jornalista e cineasta, Luis Espinal Camps, que lutava pelos direitos humanos e pela democracia no país. Foi torturado e morto a mando de militares em março de 1980, meses antes de outro golpe militar na Bolívia, que vinha sendo acometida de sucessivos golpes militares desde 1964.
O ano de 1964 foi o fim de um sonho boliviano, a Revolução Boliviana de 1952 chegou ao fim. Uma das principais revoluções da história da América Latina, infelizmente caiu na invisibilidade, é pouco pesquisada e no Brasil é completamente ignorada. Cabe lembrar que a Revolução Boliviana de 1952 foi anterior à Revolução Cubana e Sandinista e inflamou os jovens estudantes da América Latina na época.
Marcada por ser um levante indígena e de trabalhadores das minas quéchuas e aymaras, com participação importante das mulheres, para garantir a legalidade e a democracia e empossar o presidente eleito, Paz Estensoro, representante do MNR (Movimento Nacional Revolucionário), que a partir de 1985 deixa de ser de esquerda a passa a adotar uma política de ordem liberal.
Em 1953 foi criado o Instituto Cinematográfico Boliviano (ICB), nesse contexto revolucionário e representativo. Foi o setor responsável pelos cinejornais. Em 1956 Jorge Ruiz Calvimonte assume a direção do ICB, é aqui que começamos nossas dicas de filmes.
Jorge Ruiz Calvimonte tem grande importância no cinema etnográfico latino-americano, realizando filmes com protagonismo de povos originários e suas culturas, principalmente dos povos Uros. Os filmes de Calvimonte são verdadeiras relíquias, que infelizmente são pouco conhecidas. É possível apreciar suas obras no canal do YouTube dedicado a Jorge Ruiz, com destaque a “Los Urus” (1951) e “Vuelve Sebastiana” (1953).
Jorge Sanjinés é considerado um dos principais cineastas do país ao lado de Calvimonte. Sanjinés sucedeu Calvimonte em 1965 na direção do ICB e no ano de 1966 o ICB foi extinto. Sanjinés realizou filmes dedicados aos povos indígenas e sua cinematografia foi modificada a partir de seus conhecimentos dos povos andinos. Foi um dos principais representantes de seu país no Nuevo Cine Latino Americano, junto ao Grupo Ukamau. Realizou obras memoráveis, como “Ukamau” (1966), “Yawar Mallku – O Sangue do Condor” (1969) e “La Nación Clandestina” (1989). São filmes de grande importância do cinema latino-americano, infelizmente difíceis de encontrar para assistir em boa qualidade.
Possivelmente Llukshi Kaimanta (Fuera de aquí) de 1977, seja o filme que melhor traduz a concepção de Sanjines na representação dos povos indígenas. Um filme importante na cinematografia mundial, por alguns aspectos relevantes. Primeiro é necessário conhecer um pouco do processo criativo e de maturidade de Sanjinés, no conhecimento da cultura indígena andina até a execução desse filme.
Outro aspecto é o conhecimento do contexto da época na América Latina, tanto político, histórico e nas artes (Cinema). É imprescindível ter consciência do que você irá assistir, não é um entretenimento, é um filme denúncia sobre o genocídio indígena, sobre limpeza étnica, sobre o poder do cinema em inflamar uma "minoria" à Revolução. É entender uma cultura e a partir disso adaptar o cinema, renunciando a convenções.
As filmagens de "Fuera de aquí", foram realizadas no Equador, na clandestinidade, em plena ditadura militar, representando a coletividade indígena como protagonista, por isso das tomadas abertas para captar essa cultura. A precariedade aparente do filme é a sua mais forte expressão e linguagem.
A importância desse filme está na análise justa e contextualizada. Uma obra importante. Um clássico latino-americano. Merece respeito e muita consideração. O cinema sul-americano, é um cinema a ser redescoberto, por seu próprio público. O filme está disponível no Canal da Cinemateca do Equador
Por mais que a história do cinema boliviano seja rica, permeada por grandes obras e realizadores, deve ser devidamente contextualizada, para entender o papel secundário das mulheres no cinema boliviano, tanto na produção dos filmes quanto nas telas. O primeiro filme dirigido por uma mulher aconteceria apenas em 1980, pela franco-boliviana Danielle Caille, em seu curta-documentário, “Warmi”, de 1980. O filme foi recém restaurado pela Cinemateca Boliviana. Para quem quiser conhecer mais da participação das mulheres no cinema boliviano, o texto “Las Mujeres Del Grupo Ukamau: Dentro y Fuera de la Pantalla”, de Isabel Seguí é uma boa dica. Infelizmente ainda são poucas as cineastas mulheres na Bolívia.
A Bolívia conta com uma Lei de Fomento ao Cinema desde 1991, mas foi agora recentemente em 2018 que foi sancionada a Adecine (Agência Boliviana de Desenvolvimento Cinematográfico e Audiovisual) e vem apresentando editais afirmativos. Esperamos que em breve tenhamos um número expressivo de mulheres no cinema boliviano, mas esse cenário não é exclusivo da Bolívia e sim, em quase toda a América Latina.
Atualmente temos um bom cenário de filmes bolivianos que se destacam em importantes festivais internacionais, como, “Utama”, de Alejandro Loayza Grisi, 2022, vencedor do prêmio de Melhor Filme Internacional no Festival de Sundance. Sem dúvidas é um dos melhores filmes latino-americanos deste século. Um filme que trata da crise climática e o quanto tem colaborado com a extinção de povos e culturas originárias. Infelizmente o filme ainda não chegou ao Brasil, nem através do streaming.
“Chaco”, de Diego Mondaca, 2020 é uma representação desoladora, sobre a degradação humana na guerra, levando o ser humano ao limite. Outro filme que também não temos acesso.
Kino Russo, também é outro realizador da nova geração que merece toda a atenção, realizador de “Viejo Calavera” (2016) e “El Gran Movimiento” (2021), filmes sobre as condições atuais dos trabalhadores mineiros indígenas. Outros filmes têm se destacado ultimamente, “Los de Abajo”, de Alejandro Qiroga, de 2022, o mais recente “El Ladrón de Perro”, de Vinko Tomicic, de 2024.
Alguns desses filmes encontramos no YouTube, mas em péssima qualidade, infelizmente. Inclusive no Making Off e Stremio, são filmes difíceis de encontrar. Esse é o grande problema de não termos acesso ao nosso cinema. Precisamos de mais investimento em distribuição ou plataformas que nos ofereça acesso. No Retina Latina temos poucas obras bolivianas disponíveis, entre curtas e longas.
Essa é a realidade do cinema latino-americano, que vem crescendo e cada vez mais com dificuldades de distribuição e de circulação no nosso próprio continente. Apenas ao nível de esclarecimento, as dicas de filmes e comentários compreendem o período pós-revolução bolivariana.
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano
Plataforma pública de streaming de filmes argentinos passa a integrar a Secretaria de Comunicação do governo federal
Mais um golpe na estrutura pública do audiovisual argentino aconteceu nesta última semana com a transferência da plataforma de streaming Cine.AR do INCAA para a Secretaria de Comunicação do governo federal.
Sem dar muitos detalhes, como sempre, a medida vai incluir a cessão de direitos autorais, bens e orçamento para a pasta governamental, podendo sofrer duros golpes quanto a sua continuidade, visto que durante a campanha eleitoral, deputados do Libertad Avanza (partido de Milei) já haviam comentado que a plataforma possui apenas “filmes peronistas”
Segue a passos largos a destruição de todo um organograma de pouco mais de 60 anos e sem avisos. (No La Capital)
Chile assume a presidência da Federação Ibero-Americana de Cinema e Audiovisual
Pela primeira vez a Academia de Cinema do Chile irá comandar a Federação Ibero-Americana de Cinema, a FIACine. O anúncio foi feito no dia 14 de março.
Maria Elena Wood, que foi presidente da Academia Chilena de Cinema por dois anos, será a responsável por comandar a FIACine, instituição que reúne 14 academias de cinema latinas.
Segundo Wood, essa posição é um reconhecimento ao cinema chileno e seus cineastas, assim como um reconhecimento à capacidade da capacidade executiva e representativa do órgão chileno.
O principal objetivo definido pela nova administração, que presidirá a FIACine no biênio 2025 - 2027, é a circulação, visibilidade e promoção do cinema ibero-americano. Criada em 2019 na Colômbia, a federação foi presidida por Espanha, Argentina e República Dominicana.
Com a riqueza audiovisual dos países Ibero-Americanos, entre eles os latinos, com o Brasil saindo de uma premiação do Oscar com a estatueta de Melhor Filme Internacional, essa união é mais que importante para o fortalecimento do cinema da nossa região. (No La Tercera)
AppleTV+ fecha acordo com Amazon e passa a integrar a seção ‘Canais’ do Prime Video
O serviço de streaming Apple TV+ é mais um a se juntar ao serviço de Canais oferecido pela Amazon no Prime Video, a plataforma de streaming da Amazon. São os vários serviços de streaming encontrados na aba de Canais, inclusive alguns com foco em TV linear, como no Premiere. Apple TV+ já estava disponível nos Estados Unidos, Canadá e Austrália, agora chega ao Brasil, Chile, Colômbia e México.
Para além das séries e filmes presentes na plataforma, também há a oferta de TV linear com as partidas da liga estadunidense de beisebol, a MLB, além da principal liga de futebol do país, a MLS.
A Amazon é mais uma que se movimenta em direção ao futuro da TV 3.0 com a oferta de vários serviços de streaming no Prime Video. Como muitos desses serviços não possuem aplicativo para Smart TVs, realocar tudo num app [quase] funcional como o da Amazon é uma jogada mercadológica bem consistente.
E como dizemos sempre aqui, o esporte, principalmente o futebol, aumenta sua presença no streaming. Agora é aguardar os próximos movimentos da Amazon, e um que seria bem interessante é de aglomerar vários serviços em pacotes personalizados para que seus clientes escolham de acordo com suas demandas, uma ideia nunca vista antes em todos esses anos dessa indústria vital. (No TaviLatam)







