Simplificando Cinema #92
Netflix e Cinemateca anunciam parceria por meio da Lei Rouanet e deixam setor abismado com tamanha leniência.
A semana no audiovisual brasileiro não poderia começar de forma pior do que a notícia que a Netflix vai se tornar patrocinadora da Cinemateca. O encontro de instituições que não conversam entre si já seria bizarro o suficiente se fosse uma parceria privada da empresa, mas consegue piorar quando lemos a informação e nos deparamos com a logo da Lei Rouanet, uma lei de incentivo de dedução fiscal utilizada por uma empresa estrangeira que quase não paga impostos a nível federal.
Contando com a presença da secretária de audiovisual, Joelma Gonzaga, o anúncio para a imprensa contou com algumas declarações bem grotescas da própria diretora-geral da Cinemateca, Maria Dora Mourão, ao afirmar que o desejo pela parceria veio após analisar o patrocínio da gigante do streaming na Cinemateca Francesa, que já dura uns bons anos.
Acontece que Mourão parece não ter feito sua pesquisa de forma satisfatória, já que parece não saber que a Netflix na França contribui com um tributo de 5% diretamente ao órgão cultural do país e mais 20% da receita bruta anual alocada em projetos do país, onde mais da metade precisa ser obrigatoriamente independentes, classificação esta que a Netflix finge que não existe no Brasil durante estes 13 anos que anda roubando os direitos patrimoniais e autorais das poucas obras que resolveu entregar.
Na outra ponta do encontro, estava Mariana Polidoro, com presença confirmada. Seu cargo na Netflix é descrito como “diretora de políticas públicas”, mesmo que tenha fugido da última audiência pública sobre a regulamentação do streaming promovida pelo Senado Federal para evitar encarar um setor bastante descontente com as suas práticas de asfixia dos trabalhadores audiovisuais.
Sobre a parceria com a Cinemateca, Polidoro afirma que a plataforma e a Cinemateca estão conectados, afinal, os mesmos profissionais que não possuem direitos das suas obras e não ganham um centavo dos lucros das mesmas que estão produzindo para o streaming, podem estar amanhã produzindo para o cinema, mesmo que o audiovisual brasileiro seja encontrado em somente 2% do catálogo que a própria, em outras ocasiões, já afirmou ser infinito.
Enquanto isso, a negociação pela regulamentação do streaming segue a portas fechadas entre o MinC, Ancine e plataformas, sem convidar os principais interessados ao tema: os trabalhadores. O roubo de dinheiro público às claras para o povo já nos deixa o recado que teremos uma legislação fraca, ineficiente e com muitos pisando na casca de banana antes mesmo de experimentar a fruta.
O Brasil está vendendo o seu audiovisual para meia dúzia de gringo e vai custar caro para o legado de muitos o conchavo feito. (No TelaViva)
Anatel faz alerta para assimetria regulatória na TV paga
Na última semana, o Conselho Diretor da Anatel se reuniu para pontuar as assimetrias regulatórias da TV paga frente ao crescimento das plataformas de streaming.
A agência indicou a possibilidade de adaptar algumas normas no futuro, embora esta adaptação seja a retirada de alguns regramentos presentes na legislação atual, como qualidade de serviços e proteção e defesa do consumidor.
Ao se mostrar favorável a essas retiradas, a Anatel também parece suspender, por enquanto, qualquer entendimento maior para a TV 3.0, da qual os dois modelos de exibição irão coexistir no mesmo espaço e ainda não sabemos como isso irá afetar o consumidor final. (No Tela Viva)
Ministério da Cultura se encontra com Associação Nacional dos Distribuidores Independentes e promete investimento
A Associação Nacional das Distribuidoras Audiovisuais Independentes (ANDAI) foi recebida no Ministério da Cultura, o MinC, em Brasília para um encontro.
Essas vinte distribuidoras são responsáveis pelo lançamento de cerca de 50% dos filmes brasileiros do mercado. Neste encontro, foram debatidos os desafios e soluções para ampliar a presença do cinema nacional nas salas do país, além do fortalecimento do setor audiovisual nacional.
Entre as demandas apresentadas ao ministério, estão o edital de comercialização no valor de R$ 60 milhões, já aprovado no Plano Anual de Investimento (PAI) do ano passado, mas que ainda não foi lançado, além da garantia de reserva de recursos para comercialização nos próximos planos anuais de investimento. No começo deste ano, a ANDAI já havia lançado uma carta relatando a falta de editais de comercialização no FSA por parte da Ancine.
É importante a ação de cobrança das entidades culturais do Brasil sobre o MinC, principalmente após o corte de 84% da Lei Aldir Blanc, que afetará todos os realizadores de Cultura no Brasil que não são ricos, e o contingenciamento de 25% do FSA, um golpe direto no setor audiovisual brasileiro.
O questionamento é se o MinC realmente trabalhará para materialização dessas promessas ou se estamos diante de mais palavras ao vento. (No TelaViva)
Ditadura Nunca Mais! Cinematografias!
No último dia 01 de abril, marcou os 61 anos do fatídico dia em que a mentira derrubou o governo eleito democraticamente de João Goulart e ludibriou os políticos de direita e parte da elite brasileira, que achavam que os militares, após o golpe militar iriam entregar o Governo para Carlos Lacerda (UDN) e seus seguidores, que conspiraram para que o golpe militar fosse possível, sendo que o próprio Lacerda acabou tendo seus direitos políticos caçados e inclusive foi preso pela ditadura.
No dia 01 de abril de 1964 dava início à ditadura militar que durou 21 anos, muito bem explorado no documentário, “O Dia que Durou 21 Anos”, de Camilo Tavares, 2012. O filme traz a tese do protagonismo dos EUA no golpe, com base em documentos, depoimentos de pesquisadores e imagens de época. Disponível no YouTube no Canal Desmistificando
No documentário, “Jango”, de Sílvio Tendler, 1984, explora a instabilidade e o processo que desencadeou o golpe, respondendo muitas questões que deram início a ditadura militar no país. O filme pode ser apreciado gratuitamente no LibreFlix
A preservação do cinema brasileiro é de fundamental importância, sendo uma parte significativa da memória da história do país. Temos muito a agradecer ao trabalho do Cinelimite que através da Iniciativa de Digitalização de Filmes Brasileiros (IDFB), vem restaurando obras e reformulando a história do cinema brasileiro.
Recentemente nos presenteou com a restauração do curta-documentário, realizado em plena ditadura militar em 1979, “Eunice, Clarice, Thereza”, de Joatan Vilela Berbel. O filme traz o relato dos horrores da ditadura militar na vida de Eunice Paiva, Clarice Herzog e Thereza Fiel. No documentário podemos traçar um paralelo através do depoimento de Eunice Paiva com o nosso vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, de Walter Salles, “Ainda Estou Aqui” e podemos ver o quanto o realizador aliviou para o lado dos militares, trazendo uma imagem dos militares, muito diferente da imagem relatada por Eunice Paiva. O curta-metragem está disponível no site do Cinelimite
No Sesc Digital também temos a oportunidade de apreciar o documentário “Elizabeth”, de Alceu Luís Castilho, Luis Indriunas e Vanessa Nicolav, 2023. Da epopeia de Elizabeth Teixeira, da luta por reforma agrária, desde o assassinato de seu marido João Pedro Teixeira por latifundiários. O documentário aprofunda a história de Elizabeth Teixeira e sua família, com base no filme de Eduardo Coutinho, “Cabra Marcado para Morrer”. Sesc Digital
Nos últimos anos podemos notar um bom número de filmes sobre a ditadura. É uma boa forma de reativar a memória e a discussão sobre a falta de julgamento dos traidores da pátria, que saquearam o país, mataram pessoas, desapareceram com os corpos de muitos, além do extermínio de povos indígenas, deixando uma herança de violência e miséria.
Alguns filmes recentes sobre a ditadura militar, “O Pastor e o Guerrilheiro”, de José Eduardo Belmonte, 2022 (Globoplay), “Zé”, de Rafael Conde, 2023 (Google Play para aluguel), “Meu Tio Zé”, de Ducca Rios, 2021, “O Mensageiro”, de Lucia Murat, 2023 (No Canal do Telecine), “A Batalha da Rua Maria Antônia”, de Vera Egito, 2023 (Nos Cinemas).
Com certeza o tema ditadura militar, vai render ainda muitos filmes, também pelo fato de ser uma forma de conscientizar e combater o crescimento da ideologia fascista no país. A ditadura militar continua nos assombrando por uma questão impunidade. Não existe anistia para golpista.
Temos que resolver esse capitulo da nossa história e o cinema tem contribuído com esse debate. Essas foram apenas algumas dicas de filmes, saindo um pouco da lista tradicional de filmes sobre a ditadura militar brasileira e apresentando alguns filmes mais recentes ou pouco comentados.
Bom filme a todes! Viva o Cinema Latino Americano!
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano
Estúdio Giz e RioFilme lançam parceria para formação em coprodução internacional
A prefeitura do Rio e a produtora Estúdio Giz lançaram, através da RioFilme, o Programa em Coprodução Internacional, voltado para as produtoras da cidade do Rio de Janeiro. O programa conta com uma carga horária de 24 horas que serão distribuídas em 2 meses de curso totalmente gratuito, online e que conta com professores especializados no tema.
O conteúdo abrange desde a contextualização histórica e regulatória até os aspectos técnicos da elaboração de contratos e certificação de obras audiovisuais, assim como estratégias de vendas e participação em festivais internacionais. A iniciativa pretende fortalecer a presença do audiovisual carioca e tornar a cidade do Rio uma marca internacional com o fortalecimento das produtoras que operam na cidade.
O curso é voltado para representantes de empresas audiovisuais que produziram entre um e quatro longas-metragens com Certificado de Produto Brasileiro (CPB). A seleção seguirá critérios que incluem políticas afirmativas tanto de raça como de gênero, além de reservar 20% das vagas disponíveis para empresas de nível 1 e 2, assim garantindo uma maior diversidade no setor.
Para quem se adequar a uma das políticas afirmativas, será permitida a inscrição de empresas que tenham produzido pelo menos um curta ou média-metragem que tenha sido exibido em um festival internacional, sendo dispensada a necessidade de produção de um longa-metragem. Serão 40 vagas conforme as regras do regulamento, sempre respeitando a prioridade política afirmativa. Cada empresa poderá inscrever no máximo um representante.
As inscrições já estão abertas e permanecerão até o dia 17 de abril via formulário. Este programa será subsidiado pela RioFilme e parte dos recursos é advindo da Lei Paulo Gustavo.
No cenário de corte de 84% do orçamento da Aldir Blanc sem muita resistência do governo nessa peleja contra o Congresso, além da notícia de um contingenciamento de 25% do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), medidas assim são importantes.
A cultura no Brasil está sob ataque há décadas, com momentos de paz relativa até o golpe contra Dilma e o povo brasileiro em 2016, quando Temer entrou e tocou o terror para cima da cultura, inclusive o audiovisual brasileiro. Foi nesse período que vimos Vingadores ter 90% das salas, uma situação que não melhorou com Bolsonaro (nem era o esperado).
Com o Lula 3, mesmo com as conhecidas contradições do presidente e um Congresso reacionário atendendo aos interesses de Hollywood, jamais as projeções eram de que no início de 2025 as expectativas fossem tão baixas. Neste cenário caótico, ações como a da RioFilme, empresa pública subsidiada à Secretaria de Cultura da cidade do Rio de Janeiro, são um oásis no meio de tanta desgraça e pancadas no setor audiovisual. (No TelaViva)
Projeto de lei quer equiparar serviço pirata de TV à receptação qualificada
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, apresentou um projeto ao presidente Lula que, entre outras coisas, pretende equiparar a comercialização de serviços como "TV Box" e "gatonet" à receptação qualificada. Visando o combate à pirataria, o projeto intensifica a posição do Brasil contra a prática, que já conta com a Anatel e a Ancine na linha de frente.
Enquanto os conglomerados estrangeiros pioram cada vez mais o trato com o consumidor, aumentando o número de práticas abusivas, assim como aumento recorrentes no preço das assinaturas, o Brasil decidiu tomar o lado das grandes corporações nessa peleja, não que isso nos surpreenda, era mais que esperado.
Com pessoas, inclusive de esquerda, que acreditam que devemos viver apenas com o básico do básico, e ainda agradecer por isso, o lazer e o acesso à cultura ficam de lado. Quando o tema da pirataria aparece no jornalismo mainstream ou entre os bajuladores de conglomerados, nunca é questionado o porquê a pirataria se tornou necessária, é apenas o julgamento moral das pessoas que utilizam essa alternativa, nunca é questionado o porquê as pessoas fazem isso. Seja por preços altos para um país que 90% da população vive com até R$ 3.500 , seja por preservação já que as grandes corporações não têm tal preocupação, inclusive com a tendência dos remakes e reboots (reinício em tradução livre do inglês, é quando pegam uma franquia famosa e recomeçam do zero), é que cada vez mais os filmes originais sumam, além de que há uma tendência no apagamento das obras anteriores a década de 80.
Enquanto as empresas do streaming jogam feito os alemães, livres de marcação, a preocupação do Estado brasileiro é a intensificação da criminalização da pirataria, inclusive gerando o questionamento de quando ela chegará aos usuários, já que por enquanto o foco está apenas nos distribuidores. (No TelaViva)
Congresso peruano aprovou desfinanciamento do cinema e audiovisual do país
Não é só no Brasil e na Argentina que o audiovisual está sob ataque. O congresso do Peru aprovou uma lei que limita os incentivos fiscais que o audiovisual nacional pode receber das estatais do país.
No ano passado, a ministra peruana que comanda o Ministério da Cultura, Leslie Urteaga, ressaltou como era importante o investimento público do país no setor, o que construiria uma indústria robusta para que o audiovisual peruano pudesse competir nacional e internacionalmente.
O projeto, com nome de "Projeto Tudella", limita em no máximo 50% os incentivos fiscais e subsídios no valor total das produções nacionais. Apesar das recomendações e críticas ao projeto tanto por parte do governo e dos trabalhadores do setor, ele foi aprovado com quase o dobro de votos a favor, contando com 71 votos favoráveis à aprovação e apenas 37 contra, quatro foram as abstenções.
No contexto político que o Trump anda aplicando tarifaços e os números fictícios de Wall Street ficam mais vermelhos que as contas de quem ainda tenta fazer cinema no Brasil e não é um herdeiro bilionário, Hollywood olhará cada vez mais para o mercado externo, então medidas assim podem ser interpretadas tanto como ataques a indústria nacional do país, que tenta contar histórias peruanas, algo parecido que acontece no Brasil, como uma forma da expansão do mercado exibidor e o domínio das empresas de streaming.
Derrotas assim se proliferam pela América Latina enquanto os trabalhadores do audiovisual por toda a região sentam para recolher os cacos e tentar se reerguer com a ajuda dos colegas de profissão e aqueles que entendem a importância do audiovisual como uma poderosa ferramenta política às esquerdas do nosso continente. (No InfoBae)





